CRÔNICA DO ADEUS

O mundo fica ainda mais mal frequentado sem o mestre Verissimo

Luis Fernando Verissimo morreu, aos 88 anos. O seu legado é inestimável e suas crônicas ficarão para sempre no imaginário nacional.

Obrigado por tudo, mestre - Foto: Unesp/Divulgação
Obrigado por tudo, mestre - Foto: Unesp/Divulgação

Sei que o espaço aqui é para falar de filmes, mas peço licença ao leitor e abro espaço para homenagear o mestre Verissimo, que nos deixou nesta madrugada. E não estaremos tão fora do tom. Afinal, amante declarado da sétima arte, ele sempre enxergou o cinema com o olhar de quem também sabia construir histórias.

Lembro como se fosse hoje. Saí para comprar roupas com o meu pai, algo que praticamente todo homem odeia fazer e criança mais ainda. Mas como as que eu tinha já estavam na iminência de rasgar, se tratava de uma missão inevitável. Então, é óbvio que a compensação teria que vir de alguma forma. No meu caso, nada que uma parada em uma livraria não resolvesse. E foi assim, ali na Ponto & Vírgula do Shopping Castanheira, que comprei o meu primeiro livro de Luis Fernando Verissimo.

Era uma fase de transição, quando já buscava novas leituras. Aos dez anos de idade, as aventuras narradas nos livrinhos da série Vaga-Lume, que haviam sido uma excelente iniciação, não me satisfaziam plenamente. Acho que queria algo mais próximo do cotidiano, do que eu vivia, com que pudesse me identificar. Um ano antes meus pais haviam se separado, não sei se tem a ver, mas, a partir daí, histórias com temas que mexiam puramente com o lúdico, com a imaginação infantil, como vampiros, detetives, ilhas perdidas e insetos falantes, embora continuassem a ser legais, deixaram de ser, por si só, um atrativo. Era preciso algo mais.

A importância das crônicas de Verissimo

Nesse contexto, as crônicas do Verissimo caíram como uma luva. O humor a serviço da realidade. Um olhar irônico sobre hábitos e costumes da classe média que eu podia enxergar bem ali ao meu lado, seja em casa ou na escola. As suas “Comédias da Vida Privada”, ao mesmo tempo que me despertavam para um tipo de literatura que ainda não havia conhecido – a crônica – e que até hoje é o meu preferido, me permitiam ter também um maior entendimento da nossa sociedade ao decifrar os códigos por trás daquela observação bem-humorada que o autor fazia do dia a dia.

De lá pra cá, a cada novo livro do Verissimo comprado (e foram muitos), minha admiração só aumentou, pois ele não se resume a histórias bem contadas, mas também emplaca textos opinativos e comentários articulados. Aqui entram assuntos como cinema, futebol, política e outros. E mesmo que não concorde com a sua visão sobre alguns aspectos abordados em seus escritos, a respeito, porque ele tem o poder de embasar sua opinião e isso, embora não pareça, é algo muito complexo. Requer um equilíbrio entre fatos e bagagem pessoal. Estudo e subjetividade. Poucos conseguem e Verissimo é mestre nisso. Ele não dá pitaco, opina.

O legado e a eterna presença de Verissimo

A notícia de sua internação em estado grave, na última semana, me fez exclamar um senhor palavrão. A ideia de sua morte era algo impensável. Já imaginou? Colocar o verbo no passado ao escrever e falar sobre ele? Sei que ninguém é eterno, mas ainda assim, não. Esse é um dos pontos em que concordo totalmente com o próprio Verissimo. Certa vez, ao ser perguntado sobre o que achava da morte, respondeu: “Sou contra”. Mas não adianta espernear. Ele se tornou vítima dessa palhaçada do destino. Como pode? Se ainda há filmes com divas de Hollywood para se (re)ver, a seleção com o Ancelotti que vai tentar o hexa na Copa para se deliciar… Verissimo não estará aqui. Se “o mundo não é ruim, só está mal frequentado”, agora mais ainda sem a sua presença. Só nos resta dizer obrigado, mestre. O seu legado é eterno.