OBRA-PRIMA

“O mensageiro do diabo” é uma fábula sombria e inesquecível

Robert Mitchum interpreta um dos grandes vilões da história do cinema - Foto: Divulgação
Robert Mitchum interpreta um dos grandes vilões da história do cinema - Foto: Divulgação

Um dos grandes filmes da história do cinema, “O mensageiro do diabo” transita habilmente entre luz e sombras, entre uma realidade amargurada e o conforto proporcionado pelos contos de fadas. Ambientado durante a Grande Depressão dos Estados Unidos, nos anos 1930, os personagens são nitidamente tomados por um sentimento de desespero e angústia, típicos da época. Mas há o contraponto, com o amparo na religião e no senso de comunidade. Por vezes de forma fanática, por vezes sincera. É o clássico embate entre o bem e o mal, em que o antagonista Harry Powell, um falso reverendo que tem as palavras “amor” e “ódio” tatuadas nos dedos, tenta usar a seu favor, com um cinismo revoltante e, paradoxalmente, sedutor.

“O mensageiro do diabo” – “A noite do caçador” no original -, de 1955, é o único filme dirigido por Charles Laughton, mais conhecido por seu trabalho como ator, que usou e abusou da sua experiência prévia como diretor teatral para realizar uma obra simples na superfície, mas que possui uma profundidade emocional e psicológica impressionantes. Para atingir tal objetivo, Laughton mergulha de cabeça no expressionismo e, ao lado do diretor de fotografia Stanley Cortez, usa distorções visuais em ângulos “estranhos” e alto contraste, além de uma direção de arte que aposta na artificialidade para criar uma atmosfera de pesadelo.

O filme foi um fracasso de público e crítica por ocasião do seu lançamento. Natural, pois estava muito à frente do seu tempo, inclusive por causa da sua difícil categorização. É um policial, suspense, fantasia ou mesmo um novo clássico de terror da Universal? A resposta para todos é “sim”. Tanto que podemos afirmar que ele não envelheceu absolutamente nada. E essa atemporalidade advém, principalmente, do seu descompromisso com a realidade, sendo possível contar uma história assustadora e, ao mesmo tempo, belíssima, com imagens que ficam gravadas na retina (o fundo do rio pode esconder segredos aterradores) e que influenciaram inúmeros cineastas posteriormente.

Baseado no aclamado romance “The Night of the Hunter”, publicado em 1953 por Davis Grubb, o filme é transportado para as telas pelas mãos do roteirista James Agee, mas sempre se levantou dúvidas sobre quem seria, de fato, o maior responsável pelo roteiro, Agee ou o próprio Laughton. A narrativa gira em torno de um falso pregador — vivido por Robert Mitchum — que, com intenções sombrias, seduz e se casa com uma viúva (Shelley Winters). Seu verdadeiro objetivo é descobrir o paradeiro de uma quantia roubada de um banco pelo falecido marido da mulher e que apenas os seus filhos sabem onde está.

Robert Mitchum tem uma presença imponente na tela, o que é amplificado pela forma como é filmado, em enquadramentos que o agigantam, que ressaltam o seu poder sobre os demais. Não à toa, sua sombra paira de maneira brutal sobre as crianças, que o veem pela primeira vez com sua silhueta ameaçadora projetada na parede do quarto. Aliás, cena foi referenciada anos mais tarde por William Friedkin em “O Exorcista”, que também se tornou clássica. Mas a própria atuação de Mitchum eleva o seu patamar de vilania. A sua voz ressoa, é potente. Os seus gestos, teatrais. Ele não tem medo de resvalar na caricatura, pois o filme pede isso. No porão, ao chamar pelos pequenos John e Pearl, a aura é opressiva.

O calvário das crianças durante a fuga empreendida dá conta da forma implacável com que Powell os caça. O vilão, de certa forma, antecipa os assassinos seriais dos filmes de terror slasher, com sua onipresença, sempre ali à espreita, não importa o quanto suas vítimas corram. O seu passo é lento e certeiro. “Ele não dorme!”, exclama John, ao vê-lo se aproximar a cavalo. É neste ponto que a trama contrapõe de forma mais acintosa a ganância e a fé. Primeiro simbolicamente, na sequência em que John e Pearl estão a bordo de uma canoa, rio abaixo, retratados em segundo plano, levados pela força da natureza à possível salvação. Depois, já sob a tutela de uma bondosa e religiosa senhora (Lillian Gish), o subtexto é esquecido e o discurso se torna mais direto – mas nem por isso menos forte.

É por tudo isso que, setenta anos após o seu lançamento, “O mensageiro do diabo” permanece como uma obra, tematicamente e esteticamente, fundamental.

Onde assistir

  • “O mensageiro do diabo” está disponível para streaming no Amazon Prime Video, Belas Artes à La Carte e Darkflix; e para aluguel na Apple TV.

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