
Pará - A atividade desenvolvida por Murtinha por mais de seis décadas não foi uma escolha planejada. Ainda criança, a parteira se viu diante de uma realidade que ela acompanharia pelo menos outras 2.500 vezes ao longo da sua vida adulta: os gritos de dor provocados pelas contrações que precedem um parto. Atendendo ao chamado recebido ainda aos seis anos de idade, a hoje senhora de 72 anos é uma das parteiras que protagonizam uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes da Amazônia (PPLSA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus Bragança.

Sob o título “A Representação Social e as Múltiplas Vozes das Parteiras de Comunidades Tradicionais do Nordeste do Pará, Amazônia Brasileira”, a dissertação busca analisar a representação social e as múltiplas vozes das parteiras tradicionais que atuam na comunidade de Fernandes Belo, no município de Viseu, no nordeste paraense.
Autor da pesquisa, o enfermeiro Neidivaldo Santana Cruz é natural de Fernandes Belo e cresceu em meio ao saber-fazer e ao respeito conquistado pelas parteiras na comunidade. Considerando a necessidade da academia discutir e conhecer a atuação dessas mulheres que prestam um serviço tão importante na Amazônia brasileira, quando foi aprovado na seleção do programa de mestrado Neidivaldo percebeu que poderia juntar a sua convivência próxima às parteiras e a questão acadêmica para estudar as representações sociais delas para aquela comunidade.
“A lembrança das parteiras por ocasião de minha infância e adolescência sempre me acompanhou, pois presenciei diversas vezes, entre os cruzamentos de quintais do interior, as parteiras chegando nas casas das parturientes e, em alguns minutos ou algumas horas, tinha-se o choro de nascimento de uma criança que acabara de chegar à vida terrena”.
Além de Murtinha, a pesquisa também coletou relatos das parteiras Cheiro de Jirau, de 61 anos, e Barbatimão, de 56 anos. Para preservar as identidades das interlocutoras, o pesquisador adotou codinomes que fazem referência aos vocábulos mais evocados no momento das entrevistas com cada uma delas. Neidivaldo conta que, nos relatos das três parteiras, se repetia a referência de que elas se tornaram parteiras a partir de um chamado.
“Elas o classificavam como um chamado ou um Dom, relatam que foram movidas por chamados inexplicáveis para resolver situações emergenciais por meio de conhecimentos que acreditam que já nasceram com elas, ou ainda, passados a elas no momento de uma necessidade, de emergências, como é o caso da parteira Murtinha que aos 6 anos de idade vivencia a manifestação deste conhecimento”.
No relato feito ao pesquisador, a Parteira Murtinha explica que a própria mãe sentia as dores do trabalho de parto de seu irmão e ela, ainda aos seis anos, ficou por perto escutando os gritos. Mesmo impedida de entrar no cômodo onde sua mãe estava, da porta Murtinha passou instruções para seu pai: “levanta, levanta ela, deixa ela passar um tempinho em pé”, ela relata que falou ao pai. “Agora dar um suculão na cintura dela que ela vai ter o filho”. Seguidas as orientações dadas pela filha, a bolsa da mãe estourou e, depois de deitá-la novamente no chão, o irmão de Murtinha veio ao mundo.
Apesar de ter ocorrido quando ela já era uma mulher adulta, o primeiro parto orientado pela Parteira Barbatimão também se deu de forma empírica. Segundo relatou a Neidivaldo durante o processo de pesquisa, Barbatimão tinha cerca de 30 anos de idade quando um rapaz foi chamá-la. Mesmo ela não sendo parteira até aquele momento, esses chamados aconteciam. Neste dia, ela lembra que inicialmente decidiu não atender ao chamado, mas uma inquietação tomou conta dela e ela decidiu ir atrás da gestante, mesmo sem saber exatamente o que faria lá. “Mas eu fui, cheguei lá e eu fui fazendo as coisas, parece que alguém ia me dizendo na minha cabeça como fazer e ao mesmo tempo eu ficava rezando, ficava ouvindo palavras na minha cabeça pra eu ir dizendo. Aí eu fiz, voltei pra casa e parece que eu vinha feliz, mais leve. Aí, desde então, eu comecei a fazer parto, às vezes eu quero negar, mas eu passo o dia ruim”.
A partir destes e outros relatos apresentados pelas parteiras entrevistadas, Neidivaldo pode ter acesso a novos saberes, conhecimento que não necessariamente estava inserido em suas experiências prévias como enfermeiro, embasadas no conhecimento científico. “Por eu ser formado em enfermagem, eu tive um certo cuidado para acessar as parteiras tradicionais, pois existia para mim o conhecimento científico e eu estaria acessando o conhecimento tradicional realizado pelas parteiras”, lembra. “No entanto, com a pesquisa de campo este receio foi se dissipando e eu fiquei à vontade e aberto também para apreender os saberes dessas mulheres que, sem escolarização, fazem o processo de parto tão bem quanto os profissionais formados na academia”.
O pesquisador reforça que não foi o objetivo desta construção de conhecimento comparar saberes ‘tradicionais’ e ‘científicos’, e muito menos utilizar os seus conhecimentos de enfermagem para avaliar ou processar falas científicas do ‘certo’ ou do ‘errado’. O que o autor do estudo pode constatar foi que as parteiras cumprem até hoje um papel fundamental em suas comunidades, mesmo nos casos de gestantes que optam por fazer o seu parto nas Unidades Básicas de Saúde.
Ainda que o número de partos que realizam atualmente tenha diminuído, as parteiras continuam atendendo gestantes, do pré ao pós-parto. “As informações que essas mulheres detêm são fundamentais e seus conhecimentos e utilidades refletem uma cultura vasta, uma enorme riqueza acumulada que tem, em muito, contribuído para o cuidado da saúde das mulheres brasileiras”, aponta o pesquisador. “De forma geral, as parteiras participantes desta pesquisa, reconhecem-se na Comunidade de Fernandes Belo por meio do ofício de parteira, especialmente as Parteiras Murtinha e a Parteira Cheio de Jirau que declararam já ter realizado mais de 2.500 e 1.200 partos, respectivamente. Assim, além do ‘dom’, os anos de experiências e o número de partos realizados deram a estas mulheres a confiança para realizarem os partos sozinhas e justificarem junto aos médicos, outras práticas e estratégias de cuidados para garantir à parturiente tranquilidade e êxito no parto e na recuperação da parturiente”.
Essa experiência vem de um período em que a presença de médicos e enfermeiros nas comunidades não existia. Neidivaldo explica que, mesmo depois da criação da Saúde da Família (SF), em 1994, essas presenças eram raras. Na época, em Fernandes Belo, havia um único dia na semana que o médico e o enfermeiro atendiam nos postos de saúde, nos demais dias da semana havia somente um responsável pelo posto, que em geral, era um técnico de enfermagem. “Assim, dentro do contexto de ausências de outros profissionais de saúde, as Parteiras Murtinha e Cheiro de Jirau chegaram a realizar mais ou menos três partos por dia”.
Hoje, os relatos das parteiras deixam claro que esse número já diminuiu, mas não acabou. “Mesmo com a instalação das UBS’s nas mais diversas comunidades, a confiança nos serviços dessas parteiras ainda persiste. Seus cuidados de saúde refletem práticas ancestrais latentes nas comunidades tradicionais amazônicas”, conclui Neidivaldo.