Seis indígenas Warao, vindos da Venezuela, foram contratados como alfabetizadores no Programa Brasil Alfabetizado, iniciativa do Ministério da Educação (MEC) implementada no Pará pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc). O projeto pioneiro garante aulas trilíngues — em warao, espanhol e português — para 90 jovens, adultos e idosos em situação de vulnerabilidade em Belém, Ananindeua e Outeiro.
Pela primeira vez no Brasil, indígenas Warao atuam como professores em um programa nacional de alfabetização. A ação representa inclusão social, geração de renda e valorização cultural, além de abrir caminho para uma política pública de educação indígena diferenciada no Pará.
A mobilização foi articulada pelo Conselho Warao Ojiduna (CWO), criado em 2022, com apoio do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O documento “Karata Inamina Isia – Premissas para elaboração de um Plano de Educação Indígena Warao” orientou a formulação da proposta e abriu caminho para a contratação dos alfabetizadores.
Segundo Wannice Bandeira, gestora do programa no Pará, a iniciativa é inédita no Brasil. “Ela alia inclusão, renda e dignidade. Queremos avançar para a criação de materiais didáticos próprios, em parceria com a Uepa, a partir da experiência dos alfabetizadores Warao”, afirma.
Educação diferenciada como futuro
Levantamento do CWO aponta que mais de 180 crianças e jovens, além de 90 adultos Warao, estão matriculados em escolas municipais e estaduais da região metropolitana de Belém, mas enfrentam barreiras linguísticas e culturais. Para a alfabetizadora Josefina Jimenez, a atual experiência é um passo estratégico: “Nosso objetivo é que os jovens cheguem à universidade sem perder a cultura e os costumes. Nunca abriremos mão da nossa identidade”, reforça.
Luta por uma escola própria
Entre as principais demandas está a criação de uma escola indígena Warao, com transporte, merenda diferenciada preparada por cozinheiras da comunidade e currículo que incorpore saberes tradicionais, como história, cantos, artesanato e práticas físicas típicas.
Para a antropóloga Clémentine Maréchal, do IEB, a iniciativa é histórica, mas precisa avançar: “É um primeiro passo para consolidar uma política permanente de educação diferenciada. A contratação de alfabetizadores Warao fortalece a luta por uma escola própria e metodologias de ensino criadas pela própria comunidade”, avalia.