
Enquanto o governo federal promete transatlânticos, e o governo estadual vai construir vilas e adaptar escolas, um recurso do transporte de mercadorias será adaptado como nova solução para abrigar participantes da COP 30, a conferência do clima que Belém sedia em novembro. Contêineres convertidos em quartos de hotéis. Já foram encomendados 20, que serão transformados em 40 quitinetes de 15m².
A ideia de aproveitar os contêineres é de Ivan Ferreira, CEO da Novo Engenho, empresa que já transformou os compartimentos de metal em unidades habitacionais e escritórios. Será a primeira vez que serão usados em hotelaria. As duas quitinetes que surgirão de cada contêiner de 30m² terão quarto, copa e banheiro, divididos por um drywall . As conversões são feitas em 90 dias.
“Esse projeto abre a oportunidade para se mostrar as diferentes possibilidades de uso de um contêiner”, afirma Ferreira, que destaca o impacto ambiental reduzido por não utilizar cimento e areia nas obras. “A reutilização do contêiner dá, ainda, caráter sustentável ao projeto”.
Os contêineres são comprados das operadoras que atuam no porto de Barcarena, na região metropolitana da capital paraense, e que descartam esses materiais após o término dos transportes. Ferreira conta que já houve contatos de intermediários para possíveis entregas a delegações estrangeiras. Mas ainda não há nenhum negócio fechado.
O projeto casou com a necessidade de Paulo Henrique Ataíde, presidente do grupo empresarial paraense Agria e Ataíde que encomendou os primeiro 20 contêineres para hospedagem. Por causa da COP 30, Ataíde abriu um restaurante de alta gastronomia na Ilha do Combu, a 15 minutos de barco de Belém. O projeto final incluía hospedagem, mas, diante do tempo exíguo e dos altos custos, Ataíde teve de restringir opções.
“A ideia foi boa pelo tempo curto de montagem e também para superar as dificuldades financeiras e de mão de obra que existem no momento em Belém. Além disso, eu consigo montar uma hospedagem sem desmatar nada”, elogia Ataíde.
Espaço do alojamento
As unidades do restaurante ficarão em um terreno na beira do Rio Guamá, para servir de pequeno porto do traslado a partir de Belém. A perspectiva é que as equipes das ONGs que já reservaram o restaurante para eventos paralelos na COP ocupem os quartos, pensados para duas ou três pessoas.
Belém precisa dobrar sua rede hoteleira de 25 mil leitos para receber 50 mil pessoas em novembro na COP30. Apesar de reconhecer problemas não resolvidos na cidade, como limpeza urbana, asfaltamento e transporte, Ataíde acredita que a oferta de leitos será cumprida.
“Não vai ter resort para todo mundo, mas em termos de leito acho que vai dar certo. A gente faz Círio de Nazaré todo ano, que recebe 1 milhão de pessoas, então vaga tem”, afirma Ataíde, que, cético quanto ao legado turístico pós COP, ainda não sabe se os quartos serão mantidos e pensa em dar outro uso aos contêineres no complexo gastronômico na Ilha do Combu.
Iniciativa positiva
Antônio Santiago, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih) do Pará, para quem Belém atenderá a demanda de visitantes durante a COP 30 elogia a iniciativa dos contêineres.
“Qualquer projeto que alavanque os meios de hospedagem para COP 30 será bem-vindo. Os hotéis já estão com suas reservas praticamente esgotadas, e as plataformas de hospedagem estão com os preços totalmente fora da realidade”.
A corrida por leitos durante a COP 30 fez disparar os preços de diárias em Belém. É possível encontrar preços entre R$ 400 mil e mais de R$ 2 milhões, em residências de luxo disponíveis no Airbnb. No caso dos hotéis, as diárias médias que costumam custar entre R$ 700 e R$ 1,2 mil podem chegar a R$ 3 mil durante o evento.
Esforço conjunto
Enquanto isso, os governos estadual e federal vêm tomando medidas para chegar ao número entre 50 e 60 mil leitos, como contratar 4,5 mil quartos em transatlânticos e uma plataforma para anúncios de leitos para turistas, conceder incentivos fiscais a hotéis, construir a Vila COP 30 para chefes de Estado e reformar 17 escolas para alternativa de hospedagem. (Lucas Altino – Ag. O Globo)