SAÚDE

Idosos com câncer poderão ter prioridade no tratamento hospitalar

Projeto de lei apresentado pelo senador Jader Barbalho prevê priorização no atendimento de pacientes oncológicos com mais de 65 anos em diagnósticos, suporte, quimioterapia e radioterapia

Para Jader Barbalho, aprovação do projeto é questão de dignidade com os idosos
FOTO: ALBERTO BITAR
Para Jader Barbalho, aprovação do projeto é questão de dignidade com os idosos FOTO: ALBERTO BITAR

O Projeto de Lei (PL) 1067/2022, de autoria do senador Jader Barbalho (MDB-PA), avança no Congresso Nacional com uma proposta de impacto direto na vida de milhões de brasileiros idosos. A iniciativa, já aprovada pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, altera o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) para garantir prioridade no atendimento hospitalar a pessoas com mais de 65 anos diagnosticadas com neoplasia maligna (câncer).

Na prática, o texto propõe que, além da prioridade já assegurada pelo Estatuto do Idoso em diferentes serviços, o tratamento de câncer seja considerado prioridade absoluta na rede hospitalar. Isso inclui diagnósticos, procedimentos de suporte, quimioterapia e radioterapia.

A proposta busca reforçar direitos que hoje, embora previstos em normas como a Lei 12.732/2012 (que estabelece prazo máximo para início do tratamento oncológico no SUS), ainda não são plenamente cumpridos, principalmente no caso da população idosa.

Segundo Jader Barbalho, a aprovação é uma questão de dignidade. “Pessoas em tratamento de neoplasias malignas enfrentam enormes desafios desde a descoberta da doença até a possibilidade de conseguirem um tratamento adequado. Elas estão fragilizadas, em sofrimento na maioria das vezes. É o momento de mais vulnerabilidade tanto para o paciente quanto para a família. A dignidade no atendimento e no tratamento é o mínimo que se pode oferecer para pessoas nessa situação”, afirmou.

O senador paraense ressaltou que muitos idosos não conseguem iniciar rapidamente as terapias necessárias, seja por falta de vagas, seja pela ausência de preparo clínico adequado para suportar procedimentos agressivos. A mudança no Estatuto, segundo ele, é essencial para reduzir a espera e aumentar as chances de recuperação.

Tratamento oncológico em idosos

O tratamento oncológico em idosos deve ser individualizado e não se basear unicamente na idade, mas sim na avaliação do estado de saúde geral do paciente e na presença de comorbidades, usando uma abordagem multiprofissional com a chamada oncogeriatria. As opções terapêuticas incluem quimioterapia, radioterapia, cirurgia, e terapias-alvo ou imunoterapias, que podem ser mais ou menos adequadas dependendo das condições do idoso. A avaliação funcional, a qualidade de vida e os cuidados paliativos são essenciais, e a prática de atividades físicas adaptadas pode melhorar o bem-estar do paciente durante o tratamento.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil terá 704 mil casos novos de câncer por ano no triênio 2023-2025. Mais da metade desses diagnósticos atinge pessoas com 60 anos ou mais. Entre os tipos mais incidentes na população idosa estão: próstata (homens), mama (mulheres) e colorretal e pulmão (ambos os sexos)

Estima-se ainda que 70% das mortes por câncer no país ocorram entre pessoas acima dos 60 anos, reforçando a importância do acesso rápido e contínuo a tratamentos.

No Pará, estudos acadêmicos revelam uma tendência de crescimento preocupante. Entre 2014 e 2018, foram registrados 532 casos de câncer de pulmão em idosos, com maior incidência entre homens de 60 a 69 anos, muitos com histórico de tabagismo.

Em Belém e Ananindeua, entre 2008 e 2017, houve aumento expressivo nos casos de câncer colorretal em pessoas acima de 64 anos: crescimento anual de 5,3% entre homens e de 2,8% entre mulheres.

Esses dados reforçam o desafio para o sistema de saúde da região, que enfrenta não apenas dificuldades de infraestrutura e logística, mas também a necessidade de garantir atendimento ágil e humanizado a uma população idosa crescente.

Com a aprovação na Comissão de Saúde, o PL segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, última etapa antes de ser apreciado pelo plenário. Caso aprovado, retorna ao Senado apenas se sofrer alterações de mérito.

A medida é considerada por especialistas e parlamentares uma resposta humanitária ao desafio de garantir cuidado ágil a quem enfrenta o câncer em idade avançada. O reforço da prioridade legal poderá servir como instrumento para pressionar gestores públicos e hospitais a acelerar o atendimento, em um cenário em que a sobrevida depende diretamente do tempo de início do tratamento.