Um encontro fictício entre Sigmund Freud (Odilon Wagner) e o escritor, poeta e crítico literário C.S. Lewis (Marcello Airoldi), dois intelectuais que influenciaram o pensamento científico e filosófico da sociedade do século 20, é encenado no espetáculo “A Última Sessão de Freud”. Um dos maiores sucessos do teatro brasileiro desde 2022, a peça ganha curta temporada no Theatro da Paz, iniciada na sexta, 29, e com novas apresentações neste sábado, 30, e domingo, 31.
Com direção de Elias Andreato para o texto do premiado autor americano Mark St. Germain, a montagem já foi vista por mais de 150 mil pessoas, em mais de 350 sessões, um sucesso que o ator Odilon Wagner acha que também vem da profundidade do texto e o momento brasileiro.
“Acredito que a partir da pandemia, as peças que são um pouquinho mais reflexivas, que trazem um pouquinho mais de pensamento, ganharam um espaço muito grande. A pandemia trouxe um novo momento para nós, brasileiros, em particular, porque nunca tínhamos vivido essa sensação de guerra, que é o medo de morrer que a pandemia trouxe. Percebemos que as pessoas estavam muito cansadas de tela, tanto é que o cinema não deu aquele salto tão grande quanto o teatro após pandemia. E estreamos logo após a pandemia”, falou o ator, que volta a Belém depois de dez anos. Mas será a primeira vez dele atuando aqui.
Odilon já esteve em Belém, e no Theatro da Paz, na década de 1980, dirigindo um espetáculo com Glória Menezes. Depois, também como diretor, no Margarida Schivasappa, com a comédia “Como Ter Sexo a Vida Toda com a Mesma Pessoa”, em meados de 2015.
“Foram experiências maravilhosas. Mas, para mim, está sendo uma alegria muito grande [desta vez], porque é a primeira vez que vão me apresentar como ator e nesse templo sagrado do teatro brasileiro, que é o Theatro da Paz”, diz.
Para Odilon, “A Última Sessão de Freud” não tem um texto exatamente denso, e sim mais reflexivo. “A peça não é um tratado sobre a obra do Freud, nem um tratado sobre a obra do Lewis. É um encontro desses dois homens, brilhantes, dois gênios, que mudaram o pensamento do século 20. Mas, ao mesmo tempo, são extremamente bem-humorados. É uma peça americana, os dramaturgos americanos escrevem para o público, eles não escrevem para a bolha dos psicanalistas ou dos psicólogos ou dos teólogos, que seja”, disse o ator.
O ator conta que, entre as reações comuns que ele e Aroldi têm encontrado nas apresentações é o riso. “A plateia gargalha no espetáculo. Mas só que a peça toca em pontos filosóficos, de vida. Deus existe mesmo? Qual é o sentido da vida? Vida após a morte? Finitude? Mas tudo de uma maneira compreensível para qualquer tipo de cidadão. Então acho que esse é o grande mérito da peça”, acrescentou o ator.
O cenário assinado por Fábio Namatame (indicado ao Prêmio Shell de melhor cenário por esse trabalho) reproduz o consultório onde Freud desenvolvia sua psicanálise e seus estudos. Ele estava exilado na Inglaterra depois de ter fugido da perseguição nazista na Áustria, em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1939. O ambiente para essa conversa imaginada com C.S. Lewis, que além de ser um escritor de sucesso – reconhecido especialmente pelos livros que compõem a saga de fantasia “Crônicas de Nárnia” -, era também um acadêmico, crítica e ensaísta de destaque.
“O Freud era um ateu convicto e o Lewis, um ex-ateu que se converteu ao cristianismo e se transformou num dos maiores defensores da fé cristã. Freud, fugindo da perseguição nazista na Áustria, muda-se para Londres e procura o Lewis, que já tinha escrito as ‘Crônicas de Nárnia’, e chama ele para conversar. Quer entender como é que um homem inteligente como ele, que compartilhava das mesmas convicções dele, Freud, pode virar a casaca e se converter. E a peça começa exatamente aí, na hora que o Lewis chega na casa do Freud. E é muito estimulante, muito divertida. São temas comuns de toda a humanidade. Por isso, qtem essa linguagem acessível a todas as pessoas”, pontuou Odilon.
Apesar de ser um texto ficcional, a peça traz personagens pessoas reais e destacados na história mundial. Por isso a construção de personagem, destaca Odilon, foi desafiadora. No seu caso, ele diz que partiu da tentativa do entendimento de quem era esse homem depois de tudo que ele viveu.
“É claro que interpretar Freud foi um grande desafio, porque, como é um dos personagens mais conhecidos do planeta – aliás, ele é o personagem mais caricaturado do planeta -, o meu desafio foi não cair na tentação de fazer nenhum tipo de imitação ou caricatura. Particularmente, detesto caricaturas na construção de personagens. Então, a nossa opção e da direção maravilhosa do Elias Andreato foi trabalhar a humanidade dos personagens”, disse Odilon, lembrando que a peça se passa quando o psicanalista tinha 83 anos de idade, e estava no seu último ano de vida.
“Quem era esse homem, aos 83 anos de idade, com uma doença terminal, que opta por não aguardar ela acabar com a sua vida, opta pela morte assistida? Esse é um outro tema da peça, finitude, morte assistida, que fica também na cabeça da gente, todo mundo pensa sobre esses temas”, adiantou Odilon.
O ator acredita que o grande mérito da peça são esses dois homens que pensam completamente diferente, têm embates veementes durante essa conversa, mas nunca perdem o respeito um pelo outro.
“A peça pode ser definida como um elogio ao diálogo. Eles não se interrompem, se escutam do começo ao final, argumentam, contra-argumentam, com veemência, com humor. Mas existe um respeito permanente, coisa que falta muito. Acho que talvez o público se identifique muito com a peça por isso. Não existe mais diálogo possível no mundo de hoje, parece que fazemos parte de gangues, ou é da gangue daqui ou é da gangue de lá. E a peça tem esse viés da escuta, do olhar para o outro”, destacou Odilon.
O autor Mark St. Germain já declarou que não queria que a peça se transformasse em um debate. “A peça, como falei, é justamente isso, como ela é vivenciada, o diálogo e a experiência de ideias desses dois homens, mas inclusive de compartilhamento de fraquezas humanas que os dois na peça têm, em determinado momento. O próprio Freud, pela doença, o Lewis, pela angústia de estar vendo uma nova guerra começar, porque ele lutou na primeira guerra. O autor queria que fosse uma experiência viva e não apenas intelectual”, disse Odilon, que foi indicado aos prêmios Shell, APCA e Bibi Ferreira pelo espetáculo.
Premiada
“A Última Sessão de Freud”
Com Odilon Wagner e Marcello Aroldi
Direção: Elias Andreato
Texto: Mark St. Germain
Quando: Sábado, 30, às 20h, e domingo, 31, às 18h.
Onde: Theatro da Paz (Av. da Paz, Praça da República, S/N – Campina)
Quanto: De R$30 a R$180, à venda no www.freud.art.br e
/tp-a-ultima-sessao-de-freud.html
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos
*A peça tem acessibilidade