
Por: Sérgio Augusto do Nascimento
As cidades de Belém e do Porto são praticamente irmãs, apesar da distância e das idades que as separam. Se no Porto há a Rua de Santa Catarina, em Belém tem a João Alfredo. Se aqui o portuense é um orgulhoso “tripeiro”, em Belém temos orgulho de ser chamados de “papa-chibé”.
Pois agora tem mais uma semelhança que eu faço questão de te contar: as duas cidades são cheias de lendas urbanas. E hoje vou fazer a analogia entre uma daqui e outra de Belém. Senta e prepara aí o sorvete de cupuaçu com tapioca que lá vem história.
A lenda daqui é cheia de detalhes, como as de Belém. Sabias de um certo tesouro que estaria enterrado em um mosteiro? Pois é. Vamos voltar ao ano de 1832, em pleno período que ficou conhecido como Cerco do Porto, quando D. Pedro IV (para nós brasileiros ele é o D. Pedro I) entrou em atrito com o irmão mais novo, D. Miguel.
Comentavam que a tropas liberais do D. Pedro eram anti-clericais e coisa e tal. E aqui no Porto havia muitos conventos e mosteiros. Resultado: os religiosos tinham que fugir para não ser atacados.
Um destes mosteiros ficava no alto da Serra do Pilar, exatamente do lado esquerdo de quem hoje atravessa a ponte D. Luis, e vai do Porto para Vila Nova de Gaia. Lá que moravam os Frades Agostinhos Descalços.
Os frades, com antecedência, farejaram as tropas liberais se aproximando e trataram de “pegar o beco”. Antes, porém, um destes frades enterrou um tesouro de milhões em algum ponto do mosteiro.
Isso é verdade? Ainda hoje, quase 200 anos depois, ninguém sabe responder. Mas sabe-se que este frade foi para o Brasil, onde viveu muitos anos e, já no leito de morte, teria confidenciado tudo a um amigo, também português.
A lenda é tão lenda que nem os nomes destes personagens são conhecidos. Vamos, então, chamar esse amigo do frade de confidente. Joga aí no tabuleiro de xadrez mais alguns anos e o confidente, com o mapa do tesouro nas mãos, volta a Portugal. Nem vou falar, pois a esta altura já sabes com que intenção.
Ele contrata dezenas de homens para fazer escavações e tentar encontrar a fortuna. Meses de trabalho duro se passaram e……nada. O confidente saiu do Brasil com uma boa quantia em dinheiro e isso financiou aquela aventura.
Mas sabe como funciona, né? Passaram-se os meses, a grana foi rareando, o tesouro não aparecia, os trabalhadores cansando, se frustrando……e eis que acaba o dinheiro que financiava as escavações.
A turma do trabalho pesado começou a achar que o confidente não estava muito bom das ideias e um por um foram abandonando o canteiro de obras. Resumo da ópera: a lenda não passava mesmo de uma lenda.
Será mesmo? Bem, sobre o confidente nunca mais se soube nada. Com isso, tava enterrado aquele “conto de caronchinha”. Entretanto, décadas após isso tudo ter acontecido, uma pessoa passeava pela Serra do Pilar, que hoje é um dos principais pontos turísticos do norte de Portugal, e lá encontrou um esqueleto. Para completar, estava agarrado a uma picareta.
Seriam o esqueleto e a picareta a prova final de que há mesmo um tesouro naquele mosteiro e o achado desses restos mortais reforçaria que uma turma lá esteve procurando o tesouro?
Lendas de Belém
Agora vamos para as profundezas de Belém, literalmente. Por que profundezas? Escolhi uma das nossas lendas urbanas mais impressionantes para finalizar este nosso bate-papo.
Existe um ser encantado na nossa cultura chamado cobra grande, ou boiúna. E os mais antigos garantem: tem uma dessas dormindo, faz séculos, no sub-solo da capital do nosso Pará.
A cabeça da boiúna estaria bem debaixo da Igreja da Sé, na Cidade Velha, sendo que o corpo termina exatamente na Basílica, em Nazaré. E que ninguém se atreva a perseguir o sono dela pois, no dia que se enfezar, vai se levantar e Belém afunda.
Em algumas situações, inclusive quando houve um pequeno tremor de terra em Belém, uns 17, 18 anos atrás, muitos disseram que era a cobra grande começando a se irritar…….
Outros juram que, no dia em que a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré não for realizada, vai ser a senha para a monstruosa destruir Belém. E realmente em 2020 a procissão de 3 milhões de pessoas não aconteceu, por conta da pandemia da covid-19.
Um número bem menor de pessoas foi às ruas, mesmo com as recomendações expressas das autoridades competentes para que ficassem em casa. Os supersticiosos aproveitaram e gritaram: “o fim chegou”. Bem, só posso dizer que esta anedota gritada também já entrou para o nosso folclore.
Conexão entre as lendas
E o que tem a ver o mosteiro da fortuna com a fúria da boiúna? Tudo. São histórias que enriquecem as culturas paraense e portuense e estreitam ainda mais os laços entre as duas cidades. E ainda mais lendas tão profundas que ambas estão debaixo da terra. Quem sabe se um dia a boiúna se mexer, em Belém, esse tesouro não aparece aqui em Gaia, hein?
*Sérgio Augusto do Nascimento é um jornalista paraense que vive em Portugal. Foi repórter e editor e hoje é correspondente do DIÁRIO na Europa.