ENTREVISTA

Lula diz que Brasil deve reagir às taxações de Trump

Por quase uma hora, Lula deu entrevista exclusiva ao radialista Nonato Cavalcante no hotel onde esteve hospedado

Lula falou sobre a entrega do Residencial Viver Outeiro, que estava abandonado há anos

FOTO: RICARDO STUCKERT/PR
Lula falou sobre a entrega do Residencial Viver Outeiro, que estava abandonado há anos FOTO: RICARDO STUCKERT/PR

Em quase 50 minutos de entrevista exclusiva ao radialista Nonato Cavalcante, da Rádio Clube do Pará na manhã desta sexta-feira, 14, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fez um grande balanço de seus mais de 25 meses de terceiro mandato.

Em Belém desde a quinta (13), para uma série de agendas de governo, ele conversou com a CLUBE no hotel onde esteve hospedado, em Nazaré, e falou sobre as expectativas para a realização da 30ª Conferência das Partes, a COP30, aqui em Belém, no mês de novembro próximo; sobre a reação contra eventuais tarifas impostas ao governo brasileiro pelos Estados Unidos; confirmou gratuidade dos 41 medicamentos ofertados pela Farmácia Popular; e reforçou que os países ricos tem de ajudar o Brasil com a dívida externa.

“Onde chego, nos outros países, o pessoal fala, em todo lugar, que a Amazônia é o coração, o pulmão do mundo. Eu digo que é verdade, e acrescento: a dívida externa é a pneumonia, então nos ajudem”, declarou a Cavalcante na entrevista. “Estamos reivindicando dinheiro dos países ricos, já derrubaram as árvores deles, e se querem as nossas, têm que pagar”, justifica.

Ele se disse emocionado ainda com o ato de entrega das mais de mil unidades do Residencial Viver Outeiro, pelo programa federal Minha Casa Minha Vida, entrega essa da qual ele participou, um dia antes. “De 2014 a 2024 ficou tudo parado, esses 1008 aptos parados, 1008 famílias esperando pela casa própria. Fico me perguntando o que fez o governo passado que sequer deu sequência a obras de relevância social. Tem muita governante que não tem a menor sensibilidade com o sofrimento do povo”, lamentou, lembrando que o MCMV está recuperando 87 mil unidades contratadas que estavam com as obras abandonadas.

Sobre a relação com o presidente recém-empossado dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, disse ser inexistente. Que nunca se falaram.

“O relacionamento é entre Estado Brasileiro e Estado Americano. São 200 anos de relação diplomática entre os dois países. Os EUA são extremamente importantes para nós e espero o mesmo reconhecimento. Se cada um cuidar do seu, tudo estará maravilhosamente bem”, expôs Lula.

O presidente disse ainda que sua preocupação neste momento é com a democracia, e que qualquer negação sobre esse regime de governo, como faz Trump, é perigoso. E que se Trump taxar o aço brasileiro, haverá resposta na mesma moeda.

“Nós vamos reagir comercialmente, ou vamos denunciar na Organização Mundial do Comércio (OMC), ou vamos taxar o que importamos deles. Nossa relação é igualitária. Importam de nós US$ 40 bilhões e nós US$45 bi, é o único país superavitário nesse aspecto em relação ao Brasil. Queremos paz, e não guerra. Não temos contencioso internacional”, antecipa.

GRATUIDADE

Ainda segundo Lula, os 41 itens oferecidos pelo Farmácia Popular à população brasileira passam a ser distribuídos gratuitamente. “Todos os remédios que a entidade entrega para pessoas que têm o uso continuado, aqueles que a pessoa precisa ter, como remédio para pressão, para diabetes, que tem de tomar obrigatoriamente, serão distribuídos gratuitamente para todo o povo brasileiro”, confirmou.

“Todos os remédios que a farmácia popular entrega para pessoas que têm o uso continuado, aqueles que a pessoa precisa ter, como remédio para pressão, para diabetes, que tem de tomar obrigatoriamente, serão distribuídos gratuitamente para todo o povo brasileiro”, afirmou o presidente.

Segundo estimativa do Ministério da Saúde, a medida vai beneficiar diretamente mais de um milhão de pessoas por ano, principalmente idosos, que antes pagavam coparticipação em alguns insumos. O anúncio se estende a toda a população brasileira.

Ao ser questionado sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial, Lula defendeu que o Brasil precisa conciliar sustentabilidade e desenvolvimento econômico. “Eu sonho com o dia em que não precisaremos mais de combustíveis fósseis. Mas até lá, temos que agir com responsabilidade. Se houver petróleo na Margem Equatorial, precisamos saber como explorá-lo sem causar danos ambientais”, argumentou.

Lula também destacou a importância da visibilidade da COP30. “Todo mundo fala da Amazônia, mas poucos conhecem. Agora, queremos que o mundo venha aqui, veja nossa realidade, nossa biodiversidade e a nossa gente. Queremos que os países ricos assumam responsabilidade e ajudem financeiramente na preservação”, pontuou.

O presidente reforçou a cobrança aos países desenvolvidos. “Em 2009, na COP de Copenhague, os países ricos prometeram US$ 100 bilhões por ano para ajudar os países em desenvolvimento a preservar suas florestas. Depois prometeram US$ 300 bilhões. Agora, a necessidade é de US$ 1,3 trilhão. Chegou a hora de cobrarem o que devem”, declarou.