“Stranger Things” mantém alma intacta, mas se perde na mitologia

“Stranger Things” chegou ao fim. A série apresentou muitos, muitos defeitos ao longo das suas cinco temporadas, mas perder a essência, definitivamente, não foi um deles. A proposta era clara: narrar, por meio de aventuras extraordinárias repletas de magia e imaginação, a jornada de amadurecimento de um grupo de crianças, com lições de moralidade, tolerância e, claro, o poder da amizade. Tudo muito bem embalado em uma estética oitentista extremamente nostálgica. E os criadores, os irmãos Duffer, se mantiveram fiéis a esse mote. Mesmo em detrimento de coesão e coerência dramatúrgica.

Tendo isso em mente, o principal chamariz da série também se tornou o seu calcanhar de Aquiles: a reverência aos anos 1980. Sim, “Stranger Things” não apenas celebrou suas referências na música e na moda, por exemplo, como alcançou, ela própria, um lugar no panteão da cultura pop, em termos de iconografia visual. Mas o fato é que fica bem abaixo em qualidade, pois esqueceu a receita da sua própria mídia, o cinema. Os filmes daquela década, em especial do gênero fantástico, trabalhavam os seus arquétipos com bastante simplicidade para não se perderem durante a imersão. E “Stranger Things” se perdeu no mundo que criou, sem dúvida.

Basta dizer que, após a exibição do episódio final pela Netflix, os Duffer tiveram que dar inúmeras explicações sobre o que aconteceu aqui e ali. E não, não se trata de criticar um possível “final em aberto” para a interpretação do público em relação à protagonista. Foram várias pontas soltas e, pior, contradições e incoerências quanto à própria narrativa e mitologia da série. 

Devorador de Mentes, Vecna, Mundo Invertido, Abismo… Tudo ficou muito confuso, com planos sem fundamento, vagos ou simplesmente sem lógica. Quando você não entende a motivação, fica difícil manter a suspensão de descrença. Além de que inserir novos elementos em uma reta final, como o  encontro do pequeno Creel e um cientista aleatório, deixando explicações para um “spin-off” é uma tremenda falta de respeito com quem acompanha a série. Parece que os Duffer tinham muitas ideias e não souberam explorá-las.

Fora que a série se tornou completamente desonesta com o público a partir do momento em que ficou claro que todas aquelas ameaças eram infrutíferas. Não há como temer um vilão que você sabe que não vai fazer mal aos personagens principais. Todas as mortes em “Stranger Things” foram secundárias e, tirando Eddie, sem implicações diretas na trama. Ou seja, cenas como a de Steve quase caindo de uma torre, tornaram-se um recurso narrativo manjado e cansativo, em que sabemos de antemão a falta de consequência. Max que o diga. Perdi as contas de quantas experiências de “quase morte” ela passou.

Outro aspecto completamente descartável foi a presença dos militares/cientistas. Se antes eles estavam no centro da história, ao final não passaram de meros inconvenientes, que perambulam para lá e para cá sem saber muito bem o que fazer, com uma trama mal explicada e muito mal resolvida. Pobre Linda Hamilton, foi desperdiçada com requintes de crueldade. Na verdade, a impressão transmitida é de que a morte do Dr. Brenner foi um erro de percurso. Perderam uma ligação emocional entre esse núcleo e a Eleven e tentaram compensar, sem sucesso.

Por falar em Eleven, bem, desde o final da primeira temporada já havia ficado claro qual seria o seu destino. O que diz bastante sobre os problemas de ritmo ao longo das cinco temporadas – que poderiam ter duas a menos sem prejuízo algum. A pergunta era: “O que vamos inventar para prolongar o óbvio?”. E os Duffer foram na única resposta possível, ou seja, voltar a investir pesado nas influências do RPG e em nosso apego emocional com os personagens. Tanto é que, após fim do inimigo no episódio final, a história segue por um tempo anormalmente longo, para nos fazer esquecer de todos os furos e ficar com aquela última impressão tomados pela emoção.

Pelo menos nesse aspecto o trabalho foi bem feito. Se Eleven representava a magia da infância e teria que ir embora em algum momento, a cena em que há a passagem do bastão para um novo grupo de crianças ingressarem no mundo da imaginação, com Mike, Will, Dustin, Lucas e Max subindo as escadas rumo à maturidade, foi excelente. Um retorno ao que a série sempre teve como ponto primordial. Apesar de tudo, fiquei nostálgico, confesso. E, por isso mesmo, inconformado com tantas coisas estranhas e inexplicáveis que aconteceram. Hum, ou essa era a intenção desde o início? Vai saber.

Onde assistir

  • “Stranger Things” está disponível para streaming na Netflix.

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