
Pequena joia do horror mexicano, de Juan López de Moctezuma, é um filme de resistência. O seu lema poderia ser, tranquilamente, “contra toda autoridade”, fazendo sua morada no simbolismo. Por isso ele é tão barulhento, histérico e, várias vezes, sem sentido. É a forma como as personagens agem na busca para se libertar da opressão, especialmente a religiosa.
A obra, lançada em 1977, é uma adaptação livre de “Carmilla”, novela gótica escrita pelo irlandês Sheridan Le Fanu. Inclusive, o nome do filme é um anagrama e deve ser lido de trás para frente. Apenas isso já é suficiente para revelar uma trama repleta de rituais profanos, influência demoníaca e, claro, elementos de vampirismo.
Tudo começa quando a jovem órfã Justine (Susana Kamini) chega a um convento e faz amizade com Alucarda (Tina Romero). Aos poucos, a intimidade aflora e as duas despertam forças sobrenaturais. É a senha para o fanatismo e o caos tomarem conta da narrativa, apagando a linha entre o bem e o mal.

Claro que você pode enxergar o filme pela lente da obviedade, uma simples batalha entre luz e sombras. Mas ele possui um vigor imagético e simbólico gigantesco, que não deve ser desperdiçado e embaralha todas as cartas. É impossível não interpretar o fato de que Justine e Alucarda querem apenas abraçar sua liberdade, tanto de seus corpos quanto o do livre pensar. Ou seja, para a Igreja isso só pode significar uma coisa: possessão. Qual o caminho da salvação e qual o da perdição?
Nesse aspecto, o cristianismo é visto como uma seita tão cruel quanto o satanismo. A imagem das freiras do convento, com seus hábitos ensanguentados pela autoflagelação, é perturbadora; e as atitudes inquisitórias do padre Lázaro só corroboram essa visão. Mas não se engane. Mesmo a ciência, por meio do Dr. Oszek, que tenta se colocar como “voz da razão”, também está carregada de arrogância e autoritarismo, sendo rejeitada. Como disse antes, este é um filme anti-establishment, anárquico por natureza. Não é à toa que o ator Cláudio Brook interpreta tanto o médico quanto o cigano que abre as portas do mundo sensorial para Alucarda e Justine.
E que experiência sensorial passa a ser “Alucarda” a partir deste momento. O filme ganha contornos oníricos e abre mão da coesão narrativa. É aqui que os espectadores se dividem em dois grupos. Há os que compram a ideia, mergulham nessa atmosfera de pesadelo, compartilham do “pecado” e são impactados por imagens belas e malditas; ou àqueles que esperavam um mínimo de lógica e se incomodam com o enredo despropositado e com o ritmo arrastado. Não existe certo ou errado. “Alucarda” abraça essa dualidade sem pensar duas vezes.

A razão pela qual “Alucarda” virou objeto de culto se deve muito à direção de Moctezuma e à fotografia de Xavier Cruz. A maneira como eles filmam a atriz Tina Romero engrandece demais a sua atuação, que já é excepcional. Seja mostrando-a saindo das trevas, dos cantos escuros, ou no centro da ação, focando em seus olhos expressivos, eles fazem com que Alucarda domine cada cena. É atemorizante e, ao mesmo tempo, sensual. Um deleite hedonístico.
Por fim, a sequência que contém a representação fílmica do quadro “O Sabbath das Feiticeiras”, de Goya, talvez seja a que melhor resume “Alucarda”. Uma crítica feroz à superstições enraizadas na sociedade, que a deixam em um estado de torpor, um transe profundo, eternamente vinculada a ideais medievais. Por isso Alucarda grita, grita alto, grita para nos tirar da zona de conforto. E consegue.
Onde assistir
- “Alucarda – A filha das trevas” está disponível para streaming na Filmicca e no Cultpix.
Fale com o colunista
- E-mail: [email protected]