Antes de "Curtindo a vida adoidado", Matthew Broderick estrelou este filme como um garoto que pode provocar uma guerra nuclear - Foto: Divulgação
Antes de "Curtindo a vida adoidado", Matthew Broderick estrelou este filme como um garoto que pode provocar uma guerra nuclear - Foto: Divulgação

“Jogos de Guerra” é um filme curioso. Tem um ar daquelas aventuras adolescentes típicas dos anos 1980, mas, ao mesmo tempo, reflete seriamente sobre questões como a banalidade da guerra e os perigos da inteligência artificial, além de cravar a empatia como uma salvaguarda para a humanidade. Assim, embora seja estruturado como um thriller na maior parte do tempo, aproveitando a tensão própria do período, com o medo de um conflito atômico entre Estados Unidos e União Soviética, o longa de John Badham tem muitos momentos espirituosos, que tornam a experiência de assisti-lo bastante divertida.

Para começo de conversa, o filme é protagonizado por Matthew Broderick, em uma fase pré-Ferris Bueller. Podemos dizer que ele encarna uma “versão beta” do seu clássico personagem de “Curtindo a vida adoidado”. Afinal, Ferris e David, seu nome aqui, têm muitas características similares, como o desprezo pela educação regular e por figuras de autoridade, por exemplo. David é expert em computadores e age como um hacker para mudar notas no colégio ou conseguir baixar programas e jogos para o seu consumo. Um dia, invade sem querer o computador do Departamento de Defesa e a Terceira Guerra Mundial fica por um fio.

A forma como apresenta seus personagens diz muito sobre o filme. Ora simpatizamos com eles, ora temos nossas ressalvas. David nitidamente se gaba de seus dotes de informática e age impulsivamente, como se tivesse a solução para tudo a um clique de distância. Do outro lado, o núcleo dos militares e cientistas tenta eliminar o aspecto humano das decisões estratégicas após uma falha em um treinamento, acreditando que uma máquina poderia obedecer cegamente aos comandos hierárquicos. Gradativamente, eles percebem que essa arrogância e busca por uma isenção de responsabilidade em seus respectivos problemas, pode levar ao caos e à ruína.

O equilíbrio vem da leveza do relacionamento de David com sua amiga/namorada, Jennifer, interpretada por Ally Sheedy, outro rosto icônico daquela década sob a batuta de John Hughes, desta vez em “Clube dos Cinco”. Mesmo às voltas com um possível apocalipse, eles não deixam de ser  quem são, adolescentes. Eles agem como tal, mesmo quando se tornam a única esperança de salvar o mundo, dando veracidade a uma narrativa com um potencial enorme para impedir a nossa suspensão de descrença. Além disso, não há espaço para tecnicismos, tanto tecnológicos quanto militares. Tudo flui perfeitamente, como uma grande e muito educativa brincadeira.

Dessa forma, existem algumas frases-chaves no decorrer da trama, que não deixam margem para interpretações que não gritem que este é um filme anti-guerra. Algo na linha do “A humanidade planeja a própria destruição” ou “Faça um favor ao mundo e não aja como uma máquina”. Eu poderia até afirmar que se trata de um didatismo exagerado. Mas esse raciocínio é impossível de se seguir quando percebemos que, ainda hoje, 42 anos depois, são discursos necessários, vide as recentes ameaças nucleares entre Donald Trump e Vladimir Putin, com exercícios militares sendo executados e especulações sobre testes com mísseis tomarem o noticiário. Além, é claro, do uso exacerbado e até mesmo certa dependência das pessoas em relação a aplicativos, redes sociais e ao infame Chat GPT.

É óbvio que “Jogos de Guerra” é um produto do seu tempo. Aliás, no ano de seu lançamento, em 1983, a Guerra Fria, de fato, quase se transformou em um holocausto nuclear por causa de uma falha nos sistemas de vigilância soviéticos. Um satélite enviou ao centro de comando um falso alarme, indicando que os EUA haviam disparado cinco mísseis balísticos em direção ao bloco. Ou seja, qualquer semelhança não é mera coincidência. E Badham soube trabalhar essa carga dramática com criatividade, dosando pessimismo e otimismo diante da situação limite de um “jogo” que, todos sabem, não há como ter vencedores. É aí que ele se torna atemporal. Pois a lição que o filme nos dá se mostra difícil de ser aprendida e, ciclicamente, somos testados. De todo modo, fica o alerta: no jogo da sobrevivência, “a natureza sabe quando precisa recomeçar”.

Onde assistir

  • “Jogos de Guerra” está disponível para streaming no Amazon Prime Video e Darkflix; e para aluguel na Apple TV.

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