
Nos anos 1980, os Estados Unidos estavam mergulhados em uma onda conservadora e também, devido às políticas econômicas liberais de Ronald Reagan, em uma cultura de consumo desenfreado. Dessa forma, novos padrões de comportamento foram criados e a sociedade vivia uma aparente prosperidade. Aparente porque isso era realidade apenas para poucos privilegiados, que fingiam não ver o agravamento das desigualdades sociais e do endividamento público.
O cinema, nessa época, em geral, não só “andava na linha”, como também exaltava o “american way of life”, especialmente nos filmes de ação. Mas o horror, com seu poder alegórico, sempre foi um canal para exercer um olhar crítico. Foi isso que fez John Carpenter em seu icônico “Eles Vivem”, de 1988, um poderoso manifesto político, assim como um excelente filme de terror, que foi baseado no conto de ficção científica “Oito horas da manhã”, de Ray Nelson.
A cena inicial já traz certa estranheza. O cenário é uma Los Angeles bem diferente da cidade brilhante, que pulsa em vida, que costumamos ver nos filmes. Aqui, a pobreza e o abandono saltam aos olhos. A música é melancólica e enche nosso peito de desesperança. John Nada (Roddy Piper), o protagonista, chega à cidade em busca de emprego, mas recebe apenas olhares tortos e promessas vazias de pagamento. Ele, então, se junta a uma comunidade de sem-tetos em um descampado, ao lado de uma igreja. Sentimento de solidariedade que lhe permite manter a sua empatia e humanidade quando o momento chegar.
Explico. Após uma violenta repressão policial no local, ele descobre, escondido na igreja, uma caixa com óculos de sol. Estes lhe permitem ver mensagens subliminares escondidas em outdoors, jornais e comerciais de TV. Além da verdade nua e crua: alienígenas estão entre nós e os seus planos não são nada amigáveis. Aliás, a visão em preto e branco ao se colocar esses “óculos da verdade” é significativa. Afinal, a mentira sempre parece mais vistosa.

“Obedeça”, “Não pense”, “Case e procrie”, “Compre”. Essas são algumas das palavras de ordem que estão à nossa frente sem que percebamos. Elas nos distraem para o fato da presença de seres de outro planeta, que, aliás, dizem no filme que até o ano de 2025 o mundo inteiro estará sob o domínio deles. Curioso, não? E como eles farão isso? Óbvio, tornando os ricos cada vez mais ricos ou cooptando algumas pessoas específicas, para que estes fechem os olhos e não criem problemas. É aí que entra a manipulação da mídia e o controle social exercido por ela.
Ora, é um tema atualíssimo, em tempos em que o totalitarismo ameaça o mundo mais uma vez, com Israel comandando um genocídio em Gaza e Donald Trump sugerindo que “os americanos poderiam gostar de um ditador”, e agindo como tal. Enquanto isso, o mundo assiste passivamente – ou pior, apoiando vários tipos de barbáries cometidas. “Eles vivem, nós dormimos”. De fato, o alerta do filme segue válido.
Engraçado que, agora, ao rever o filme, mudei de opinião sobre uma das suas cenas consideradas mais “sem noção”. John Nada tenta fazer com que seu amigo, Frank (Keith David), coloque os óculos para que acorde para a realidade. Ele se nega e ambos saem no braço. Eu detestava a briga, achava que quebrava o ritmo do filme com seus seis minutos de pura pancadaria. Mas, com tudo que vemos hoje, com tantos discursos enviesados, que minimizam crimes de ódio e até contra a humanidade, a cena está mais do que justificada. Fazer o outro “colocar os óculos” é, de fato, uma missão hercúlea e, por vezes, inglória. Dá vontade mesmo de esquecer uma argumentação sensata e partir para o mantra de John Nada, tipicamente oitentista: “Eu vim aqui para mascar chicletes e chutar bundas. E meus chicletes acabaram”.

“Eles Vivem” se beneficia tanto dessa atmosfera caótica (que mistura ação, ficção científica, drama e comédia) quanto do clima de paranoia, já que os humanos que se rebelam são tratados como “comunistas” e perseguidos como uma ameaça ao status quo. É exatamente dessa mistura de gêneros e da ideia de que a coletividade é perigosa que surge o horror. O horror nasce da confusão, do medo, da histeria. Ele nos atinge em cheio pela hipocrisia de governos, de poderosos e da própria sociedade. Aqui, o horror, mais do que nunca, é social, é político.
“Muitos dos ideais que eu acreditava estavam sob ameaça (durante aquele período). Os yuppies surgiram e eles só queriam dinheiro. Então, no final dos anos 80 eu fiquei farto disso e decidi que tinha que lançar um manifesto, por mais bobo e banal que possa ser, mas eu fiz um e foi ‘Eles Vivem’. Eu amei ter dado o dedo do meio para Reagan quando ninguém mais faria isso”, disse Carpenter, certa vez. Bravo! Ontem e hoje, um grande e necessário filme.
Onde assistir
- “Eles Vivem” está disponível para streaming na Filmicca e na Darkflix, e para aluguel e compra na Apple TV e Amazon Prime Video.
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