
Uma mulher com medo de viver, de recomeçar, tomada pela insanidade (talvez até por isso mesmo)… Como classificar a personagem-título de “Blue Jasmine”, filme de Woody Allen, de 2013? Difícil saber. Suas atitudes são reprováveis ao mesmo tempo em que são dignas de pena e compaixão. Ela reflete muito do que cada um de nós já vivenciou alguma vez, naquilo que temos de mais falível no ser humano: a capacidade de errar e persistir no erro.
Jasmine é complexa. Ela desperta antipatia à primeira vista, com todas as suas neuroses, preconceitos e soberba. É um efeito curioso, portanto, que desperte também a vontade de vê-la se reerguer, tomar um rumo na vida, quando perde toda a sua fortuna. Talvez seja ingenuidade querer enxergar o bem onde só há sentimentos e atitudes negativos, mas é inevitável. O contraste entre o mundo de aparências em que vivia e o mundo real que passa a habitar e no qual tenta se adaptar faz com que torçamos por ela. Todo mundo merece uma segunda chance, é o mantra que ouvimos desde sempre.
Começamos, então, a buscar justificativas para o seu comportamento prévio, principalmente no trato com a irmã, que lhe estende a mão quando poderia lavá-la, pois nunca houve reciprocidade nesse gostar, nessa proteção familiar. A primeira coisa que passa pela cabeça é que a “culpa” é do marido, que colocou Jasmine em uma redoma, tornando-a alheia aos problemas e preocupações mundanas. Sem contar o fato de a sua infidelidade lhe dar um quê vilanesco, que poderia servir de desculpa para os devaneios da esposa, nutrida apenas com boas intenções.
Mas, com o passar do tempo, observamos que a conveniência de tais situações era maior ou pelo menos em igual parcela do que a vitimização sofrida por Jasmine. Sim, ela não sabe tomar decisões, vacila em diversos aspectos do traquejo social, vive em mundo paralelo (contudo, bem real), onde a ostentação e as aparências são mais importantes do que o ser. E gosta disso. Não visa um recomeço. Visa um retorno àquele universo. O caso é que se esforça tanto para isso que a tentativa parece ser louvável e ganha a afeição do espectador. Contraditório e irônico, mas verdadeiro.
Assim, é importante notar como quem está ao seu lado também se confunde nessa busca por felicidade, tenha ela o conceito que for. Sua irmã se relaciona com parceiros broncos, porém amáveis, honestos e trabalhadores, e não ganha o seu reconhecimento. Dessa forma, tenta seguir as regras impostas por Jasmine do que seria um “bom partido”. E também o marido que a trai e comete fraudes, mas que, ao final, tem uma atitude que nos faz simpatizar com ele. Ou seja, é um retrato das relações humanas. E estas podem, ou não, estarem em frangalhos.
Como se vê, a relação entre o “ser” e o “parecer” é o que move este trabalho de Allen, que, com a força e a fragilidade de sua personagem consegue nos transportar para dentro de um colapso nervoso, onde percebemos que sentar em um banco de praça e falar sozinho, repassando detalhes da nossa vida, não chega a ser loucura, mas uma necessidade. E é por tudo isso que o filme é muito mais de Cate Blanchett, a intérprete de Jasmine, do que de Allen. A criatura engole o criador sem sequer mastigá-lo, não dando espaço para possíveis assinaturas do diretor virem à tona. A interpretação da australiana é, ao mesmo tempo, sensível e visceral. Por isso mesmo cativante.
Onde assistir
- “Blue Jasmine” está disponível gratuitamente nas plataformas PlutoTV e Runtime, e para aluguel na Apple TV e Amazon Prime Video.
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