Comédia policial abraça o caos - Foto: Divulgação
Comédia policial abraça o caos - Foto: Divulgação

Shane Black é um dos grandes nomes do cinema policial norte-americano, especialista em filmes que apostam no chamado “buddy cop”, ou seja, nas aventuras de uma dupla de policiais no centro da narrativa. Nos anos 1980, ele se firmou como roteirista deste estilo com “Máquina Mortífera” e, anos mais tarde, em 2005, fez sua estreia na direção neste seu terreno seguro, com “Beijos e Tiros”.

O título do filme é uma referência à crítica Pauline Kael, que descreveu exatamente desta forma a essência do cinema, sendo “talvez a declaração mais breve imaginável do apelo básico dos filmes”. Claro que, em meio a esses elementos, Shane traz o seu diferencial, brincando à vontade, abusando de metalinguagem e preenchendo cada cena com ação e comédia desenfreadas.

Aqui, Harry Lockhart (Robert Downey Jr.) é um ladrão que, enquanto foge da polícia, acaba fazendo sem querer um teste para um filme de detetive, sendo aprovado. Em Hollywood, ele é treinado por um detetive particular de verdade, Gay Perry (Val Kilmer), e eles acabam se envolvendo em um caso de assassinato. Ao mesmo tempo, Harry reencontra um antigo amor, Harmony (Michelle Monaghan), e as confusões só aumentam.

Val Kilmer e Robert Downey Jr., parceria improvável e hilária – Foto: Divulgação

É importante dizer que, em 2016, o diretor voltou ao tema com “Dois caras legais”. Inclusive, já escrevi sobre ele na coluna. Assim, em retrospectiva, posso afirmar que aquele é uma versão refinada de “Beijos e Tiros”, mais bem acabada. “Beijos e Tiros” abraça o caos com mais vigor, é bagunçado e tem uma trama mais intrincada, beirando o complexo. Mas não deixa de ser extremamente divertido. E o motivo é simples: as atuações. No texto sobre “Dois caras legais” eu havia dito que o ingrediente imutável da fórmula do “buddy cop” é a química entre os protagonistas. E aqui ela funciona à perfeição. 

Downey Jr., Kilmer e Monaghan estão impecáveis. Despejam carisma e frases de efeito. O primeiro faz as vezes de narrador, marcando o tom de filme noir. Mas, como o seu personagem mesmo ressalta, ele é péssimo na função, o que rende situações hilárias – especialmente na questão da metalinguagem que citei há pouco. Fora a sua fisicalidade, explorada à exaustão. Já Monaghan apresenta uma veia cômica que não lembro de vê-la repetindo em outra produção. Kilmer, por fim, é o coração do longa. Contido, estiloso e irônico, nos faz rir sem nenhum esforço.

Michelle Monaghan apresenta um timing cômico perfeito – Foto: Divulgação

Como segue a linha de sátira, o filme acaba minimizando os efeitos da violência, que, embora abundante, funciona como uma gag complementar. Não chega a ser estilizada, ela é, sim, brutal, mas de forma, digamos, divertida (?!). Por exemplo, quando Harry tenta intimidar um bandido com uma roleta russa ou quando Perry ataca usando uma arma escondida em seus genitais, arrancando, com isso, uma frase espetacular da boca de Harry.

O filme ainda é dividido em capítulos, nomeados por títulos de obras de um dos grandes mestres do romance policial, Raymond Chandler. Uma grande homenagem ao estilo direto e afiado do escritor, que “Beijos e Tiros” segue em parte. Afinal, assim como satiriza Hollywood e o subgênero noir, não seria diferente com Chandler, tornando os personagens, que tomando por base seus pares literários deveriam ser ases da investigação e com uma dignidade exemplar, em figuras dominadas pelo acaso e pelo grotesco das situações. 

Mas, claro, Harry, Perry e Harmony ficariam bastante irritados com essa interpretação dos fatos. Ora, eles são incrivelmente narcisistas e jamais iriam concordar que tudo não saiu exatamente como eles planejaram. Exibicionismo puro, que a gente só perdoa porque eles entregam – muito – entretenimento.

Veja o trailer de “Beijos e Tiros”

Onde assistir 

  • “Beijos e Tiros” está disponível para streaming na HBO Max, e para aluguel no Amazon Prime Vídeo e na Apple TV.

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