VV Carpintaria Criativa
VV Carpintaria Criativa

Em uma região tão marcada pela sociobioeconomia como a Amazônia, a atuação de mulheres empreendedoras tem se destacado à frente de negócios que unem sustentabilidade, criatividade e impacto social. Impulsionadas pela necessidade, pela paixão pelo meio ambiente e pelo desejo de criar impacto social, essas mulheres têm transformado materiais que seriam descartados e saberes ancestrais em negócios criativos e lucrativos.

As histórias de empreendedoras como Edivania Santos, Alegria Méra e Vanja Brunetta ilustram como a criatividade, aliada à responsabilidade ambiental, pode gerar um modelo de geração de renda alinhado às demandas atuais.

Idealizada por duas mulheres amazônidas, Edivania Santos e Fran Costa, a Arte Amazônida Biodesign surgiu em 2021 de uma forte paixão e senso de responsabilidade pelo mundo natural, buscando a conexão com a ancestralidade amazônica.

O empreendimento, que se dedica à criação de acessórios, começou com um mergulho profundo nas histórias acadêmicas e ancestrais das palmeiras e sementes da região. “Primeiro, a paixão nasceu na gente. Então decidimos que essa paixão seria importante para que nos tornássemos ponte entre o mundo e a região amazônica”, conta Edivania.

“Nosso propósito passou a ser mostrar que a beleza pode contar memórias afetivas e ancestrais e que conhecer essas histórias seria uma maneira de se conectar a nossa região e de alguma forma, perceber que todos temos a responsabilidade de cuidarmos dela”.

Mantendo esses princípios, as empreendedoras fizeram a primeira exposição de suas peças no próprio condomínio onde moram e onde instalaram o seu ateliê. Apenas dois anos depois, elas já estavam representando o Pará na maior feira de artesanato da América latina, a Fenearte, apoiadas pela Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda.

Para Edivania, o cuidado com o planeta e o cuidado pessoal são inseparáveis. E essa máxima já fazia parte da vida dela mesmo antes da Arte Amazônida Biodesign nascer. “A gente vendia canudo de inox, na época, como uma forma de incentivar as pessoas a diminuírem o uso de canudos de plástico, que prejudicam a natureza como um todo e nos prejudica também, até porque não somos separados dela”, conta. “Não existe o cuidado com a gente sem esse cuidado com o mundo natural e com a região amazônica. Então, essa preocupação com sustentabilidade já existia”.

Hoje, além de produzir suas próprias peças a partir de sementes e outros biomateriais, o negócio também incentiva práticas de baixo impacto e recentemente foi reconhecido pelo projeto Selo Amazônia Mulher. Edivania e sua sócia buscam ativamente parcerias com outras artesãs, fomentando a geração de renda para mulheres da região que trabalham, por exemplo, no beneficiamento das sementes. “Um dos objetivos do nosso empreendimento é dar protagonismo, também, a outras mulheres. Já fazemos isso promovendo espaço de comercialização, oficinas e gerando renda para outras artesãs aqui no Pará”.

A Trajetória de Alegria Méra e a Reutilização Têxtil

O protagonismo da artesã Alegria Méra, à frente do Ateliê Alegria, começou como a maioria das empreendedoras brasileiras, pela necessidade de conciliar uma forma de geração de renda, com os cuidados demandados pela maternidade diante da falta de uma rede de apoio. Com habilidades manuais desde muito jovem, ela percebeu que a sua produção de tiaras gerava uma grande quantidade de retalhos que ela se recusava a descartar, exercitando práticas sustentáveis.

“O empreendedorismo sempre fez parte da minha vida. Desde muito jovem já ganhava dinheiro com as minhas habilidades manuais. Meu primeiro produto foram as tiaras em tecido. Trabalhei com tiaras durante 7 anos e fui muito feliz com elas. Elas geravam muito retalhos, mas que nunca joguei fora porque sempre fui consciente sobre a responsabilidade com o ‘lixo’ que a minha empresa/produção gera”.

Com o tempo, porém, as tiaras já não garantiam o retorno financeiro que Alegria precisava. Foi quando veio a ideia de reutilizar os resíduos têxteis que tinham sido guardados da produção das tiaras. Hoje, o Ateliê Alegria trabalha com tecidos de guarda-chuva quebrados, transformando-os em mochilas e bolsas. “Hoje, eu provo que é possível transformar materiais considerados invisíveis em produtos potentes, alegres e únicos”.

Empenhada em combater o que ela identifica como uma carência de mão de obra capacitada para o trabalho com reutilização têxtil, a empreendedora tem um projeto que planeja oferecer oficinas para capacitar outras mulheres até 2026.

“Hoje, o maior desafio para empreender no Brasil, sobretudo sendo mulher nortista, é a disparidade entre o eixo sul e sudeste ao acesso a recursos financeiros, informação, educação, gestão financeira voltada para gestão do nosso negócio. Entendo que, sem as capacitações, nenhum empreendimento avança”, avalia. “A região Norte está cheia de talentos femininos que precisam desse apoio para ‘virar a chave’ e dar acesso, com paridade, no mercado”.

Vanja Brunetta: Superando Desafios e Criando Oportunidades na Carpintaria

A história de Vanja Brunetta é um testemunho de como o empreendedorismo pode ser o caminho para essa ‘virada de chave’. Depois de trabalhar por 11 anos como cobradora de ônibus e de se dedicar a cuidar do pai idoso, Vanja se viu desempregada aos 52 anos e em busca de uma nova direção. Sua jornada como empreendedora, à frente da VV Carpintaria Criativa, começou quando ela pediu sobras de madeira em uma fábrica e, secretamente, começou a criar artesanato usando as ferramentas do marido.

“Na época, eu peguei essas madeiras na fábrica e o meu marido perguntou ‘pra quê tu queres tanta madeira assim?’”, lembra. “Eu não podia dizer nada para ele porque eu ia pegar as ferramentas dele quando ele saísse para trabalhar porque, se eu contasse, ele não ia querer me emprestar com medo de eu me machucar porque era a serra, a lixadeira”.

Vanja começou fazendo pequenas caixas de madeira e em um desses dias em que trabalhava em casa, o esposo chegou e a viu atuando em suas criações. Foi quando ele passou a ajudá-la. “Quase que ele morreu do coração quando me viu com a serra, cortando. Mas foi aí que ele começou a já deixar cortado pra mim e deixar tudo só pra eu montar, pregar, lixar as peças”.

O sucesso veio rápido. Em apenas uma semana vendendo suas peças de carpintaria criativa na vizinhança, Vanja Brunetta lucrou R$250. Esse marco confirmou sua nova vocação. Meses depois, o seu marido ficou desempregado e a empreendedora convidou não hesitou em convidá-lo para trabalhar junto com ela, utilizando sobras de madeira para criar suportes para vinho e outros objetos.

Hoje, o casal vive exclusivamente da produção de artesanato e é referência na área. Eles têm um espaço estabelecido na Feira de Artesanato da Praça da República há oito anos, atuam no Solar da Beira e participam de feiras de artesanato. Recentemente, Vanja Brunetta também recebeu o Selo Amazônia Mulher, demonstrando o reconhecimento de seu trabalho. “Eu sou só gratidão a Deus pelo nosso trabalho”, finalizou Vanja.

Editado por Luiz Octávio Lucas

Cintia Magno

Repórter

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Possui MBA em Jornalismo Digital e Pós-Graduação em Sustentabilidade e Responsabilidade Social. É repórter do jornal Diário do Pará desde 2011. Atuou na cobertura internacional da COP28, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), e da COP29, em Baku (Azerbaijão).

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Possui MBA em Jornalismo Digital e Pós-Graduação em Sustentabilidade e Responsabilidade Social. É repórter do jornal Diário do Pará desde 2011. Atuou na cobertura internacional da COP28, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), e da COP29, em Baku (Azerbaijão).