Foto: Instagram
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Há 15 anos, a paraense Leila Campos transforma frutas amazônicas em bombons artesanais de chocolate, um trabalho iniciado de forma modesta, na cozinha de casa, em Vila do Apeú, distrito de Castanhal, no nordeste do Pará.

O negócio familiar ganhou novo fôlego em 2025, após uma encomenda de 900 unidades para a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em novembro, em Belém, evento que acabou se tornando um divisor de águas para o empreendedorismo sustentável local. “Foi um sucesso absoluto. Desde então, tenho encomendas todos os dias”, conta Leila, enquanto acompanha o preparo do doce de bacuri feito pelo filho Luan, de 19 anos.

A história da confeiteira e fundadora da Bombom Apeú é uma das retratadas em reportagem apurada e publicada pelo ECOA UOL, plataforma de jornalismo do UOL voltada à sustentabilidade, à inovação social e às causas ambientais, que tem se dedicado a mostrar como iniciativas baseadas na valorização da floresta e da cultura amazônica ganharam visibilidade e mercado após a COP30.

No caso dos bombons de Leila, a vitrine foi a zona azul da conferência, espaço de negociações onde os chocolates foram vendidos no estande do Nanay Café. “Visitamos Castanhal, provamos e percebemos a qualidade: bombons artesanais, recheio generoso e sabor marcante. Era exatamente o tipo de doce paraense que queríamos oferecer”, afirma Nayana Lima, dona do café.

Segundo ela, o público estrangeiro estranhou, num primeiro momento, combinações como chocolate com cupuaçu e castanha-do-pará, mas a resistência caiu após as degustações. “Quando provaram, começaram a comprar e levar para presentear. Zeramos o estoque”, relata. Leila atribui o sucesso à forma tradicional de produção, sem atalhos industriais. “Não uso forma, os bombons são moldados na mão. E não uso doce industrializado. Faço da fruta mesmo, naquela panela grossa, tradicional. Eu priorizo a qualidade do produto”, diz, destacando que o fato de os bombons terem “mais recheio do que chocolate” costuma surpreender e agradar clientes de fora do estado.

Sabores e Produção Familiar

O negócio é tocado em família: Luan, que fez curso de gastronomia, atua diretamente na produção; o marido ajuda nas compras; e outro filho cuida da contabilidade. Antes da COP30, a produção se concentrava no que Leila chama de “quarteto” de sabores — cupuaçu, castanha-do-pará, bacuri e açaí, sendo o cupuaçu o campeão de vendas. Para a conferência, porém, ela criou um bombom especial inspirado no sabor COP30 da tradicional sorveteria paraense Cairu, combinando doce de cupuaçu, pistache e castanha, uma ousadia que caiu no gosto do público.

O salto no empreendedorismo veio após uma decisão difícil. Há dois anos, Leila Campos deixou o emprego de doméstica depois de ser incentivada por uma apresentadora de rádio, a quem enviou uma mensagem em um programa sobre empreendedorismo. “Ela me encorajou a ir atrás do meu sonho. Até então, eu só vivia com esse sonho guardado. Eu sabia que sabia fazer bombons”, lembra. Com apoio da antiga patroa, pediu demissão, buscou orientação no Sebrae, estruturou a marca, organizou as finanças e passou a usar o Instagram como principal canal de vendas. Hoje, trabalha apenas sob encomenda.

Expansão e Desafios Futuros

Com a visibilidade conquistada após a COP30, os bombons de Apeú começaram a circular além das fronteiras do Pará, ainda que de forma informal. A maior parte da clientela é formada por paraenses que levam os doces como presente para outros estados. “Uma médica foi para São Paulo e levou cem bombons para um congresso”, conta. Os pedidos já chegaram do Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, mas a logística ainda é um obstáculo. “O frete é um grande desafio”, admite.

Para garantir renda enquanto planeja a expansão, Leila voltou neste ano a trabalhar meio período como merendeira em uma escola municipal, reservando as manhãs para a produção dos bombons. O objetivo, no entanto, segue firme e simples, como a receita que a trouxe até aqui: “Quero, no futuro, viver só dos bombons”. Um plano que resume bem o legado da COP30 no Pará — mostrar que desenvolvimento sustentável também se faz com tradição, panela grossa, fruta da terra e muito trabalho.

Editado por Luiz Octávio Lucas