
O governo federal definiu o novo valor do salário mínimo para 2026. Publicado no Diário Oficial da União na última quarta-feira (24/12), o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva estabelece o piso em R$ 1.621 a partir de 1º de janeiro. Atualmente, o salário mínimo é de R$ 1.518, o que representa um reajuste de R$ 103.
No Pará, o reajuste terá impacto expressivo tanto na vida social quanto na economia: cerca de 1,9 milhão de trabalhadores, o equivalente à metade da população ocupada do estado, têm no mínimo nacional sua principal referência de renda.
Segundo análises do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA), o aumento real do salário mínimo, cerca de 2,5% acima da inflação, deve resultar em uma injeção direta de aproximadamente R$ 195 milhões por mês na economia paraense, fortalecendo o consumo e movimentando principalmente o comércio e os serviços locais.
“O salário mínimo tem um efeito multiplicador muito forte no Pará. Como grande parte da renda do trabalho está concentrada nesse piso, qualquer reajuste real se transforma rapidamente em consumo, arrecadação e geração de empregos”, explica Everson Costa, supervisor técnico do Dieese/PA.
Pará tem dependência maior que a média da Região Norte
Enquanto na Região Norte cerca de 40% dos trabalhadores recebem até um salário mínimo, no Pará esse percentual sobe para 50%, o que evidencia uma dependência maior do piso nacional, sobretudo nos municípios do interior.

Os dados da PNAD Contínua do IBGE, analisados pelo Dieese/PA, mostram que o estado possui quase 3,8 milhões de pessoas ocupadas, sendo que 1,9 milhão delas recebem até um salário mínimo mensal.
De acordo com o DIEESE, o impacto do reajuste é mais sentido entre categorias de baixa remuneração, como: trabalhadores do comércio e dos serviços; trabalhadores domésticos;
Trabalhadores rurais e extrativistas; profissionais da limpeza, vigilância, portaria e apoio;
aposentados, pensionistas e beneficiários do INSS e do BPC, cujos benefícios são atrelados ao piso nacional.
“Esses grupos concentram uma parcela significativa da força de trabalho paraense e sentem de forma imediata qualquer alteração no valor do salário mínimo”, destaca Everson Costa.
Ganho real existe, mas é limitado pelo custo de vida
Embora o reajuste garanta a reposição da inflação medida pelo INPC e um ganho real, o Dieese avalia que o aumento ainda é insuficiente diante da realidade do custo de vida no estado.
No caso da alimentação, por exemplo, a cesta básica em Belém custava R$ 666,15 em novembro de 2025, comprometendo 47,4% do salário mínimo vigente à época. Para uma família de quatro pessoas, o gasto mensal apenas com alimentação básica chega a R$ 1.998,45, o equivalente a 1,31 salários mínimos.
“Mesmo com o reajuste, grande parte da renda do trabalhador paraense continuará sendo absorvida pelos gastos com alimentação, sem contar despesas como aluguel, educação e saúde, que no Pará costumam ter reajustes acima da inflação”, ressalta Costa.
Salário mínimo necessário deveria ser quatro vezes maior
O Dieese calcula mensalmente o chamado salário mínimo necessário, que considera todas as despesas básicas previstas na Constituição. Em novembro de 2025, esse valor foi estimado em R$ 7.067,18, o equivalente a 4,66 vezes o salário mínimo oficial.
Segundo Everson Costa, a grande diferença entre os dois valores ocorre porque o salário mínimo nacional é definido a partir de regras fiscais e macroeconômicas, enquanto o salário mínimo necessário reflete o custo real de vida das famílias trabalhadoras.
“Um salário em torno de R$ 7 mil permitiria alimentação adequada, acesso digno à moradia, transporte, saúde, alguma capacidade de poupança e menos endividamento. Hoje, com o mínimo oficial, a maioria das famílias apenas sobrevive”, afirma.

Reajuste fortalece a economia local
Mesmo com limitações, o Dieese avalia que a política de valorização do salário mínimo segue sendo uma das principais ferramentas de combate à pobreza, redução das desigualdades e estímulo ao crescimento econômico.
Somente a diferença de R$ 103,00 em relação ao valor anterior, multiplicada pelos cerca de 1,9 milhão de trabalhadores paraenses que recebem um salário mínimo, resulta em uma injeção mensal de quase R$ 195 milhões na economia paraense.
O Dieese/PA defende a criação de um salário mínimo regional no Pará, como forma de considerar as especificidades do custo de vida e da estrutura econômica local.
“Um piso regional permitiria elevar a renda dos trabalhadores de menor remuneração, impulsionar o consumo local, dinamizar o comércio e os serviços, especialmente no interior, além de reduzir a pobreza, a desigualdade e a insegurança alimentar. Valorizar o trabalho é central para o desenvolvimento do Pará”, conclui Everson Costa.