Candidata do atual governador à sucessão, Hana Ghassan aparece como protagonista em potencial,
Candidata do atual governador à sucessão, Hana Ghassan aparece como protagonista em potencial, Foto: Agência Pará

A sucessão ao Governo do Pará em 2026 começou antes da largada oficial, e com um elemento de peso definido: a força eleitoral de Helder Barbalho (MDB), que governa o estado desde 1º de janeiro de 2019. A mais recente pesquisa do Instituto Acertar mostra que ele, com 70,3% de aprovação, tornou-se o principal cabo eleitoral do estado. Para 32,4% dos eleitores, o apoio dele garante o voto; para outros 42,8%, influenciaria a decisão. São índices superiores aos do presidente Lula (PT) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o que reforça um cenário paraense muito próprio: a política local orbitando mais em torno da administração concreta do que da polarização ideológica.

É nesse ambiente que a vice-governadora, Hana Ghassan (MDB), aparece como protagonista em potencial. Embora ainda tenha cerca de 27% de desconhecimento, de acordo com o mesmo levantamento da Acertar, ela se destaca por algo incomum em nomes pouco conhecidos, já que é quem tem o maior potencial de voto de toda a pesquisa: 54,7% dizem que poderiam votar nela – uma vantagem exclusiva, pelo menos até o momento.

O cientista político Rafael Willian da Costa interpreta esse dado como sinal de que a curva de crescimento de Hana pode ser rápida quando vier sua ascensão natural à vitrine institucional. Ou seja, quando Helder deixar o mandato em abril do ano que vem, em função da desincompatibilização exigida pela Justiça Eleitoral para que ele concorra ao Senado Federal em outubro.

“Hana tem a vantagem de ser protagonista de entregas do governo. Quando assumir mais agendas, isso vira capital simbólico. Ela tem condições de ser reconhecida como parte essencial do sucesso do governo Helder. Esse início de gestão é como abertura no xadrez: cada movimento inicial define o tom da partida inteira”, analisa.

Ele lembra casos de vices que assumiram e tiveram seu nível de conhecimento ampliado em curto espaço de tempo: em São Paulo, Rodrigo Garcia, à época filiado pelo PSDB, assumindo em abril de 2022 após a renúncia de João Dória, também então da mesma sigla, e principalmente Wanderlei Barbosa (Republicanos), primeiramente vice e posteriormente governador reeleito no Tocantins, atualmente em mandato, são exemplos.

“Em ambos os casos, a visibilidade institucional cresceu de maneira rápida — agendas, inaugurações, reorganização administrativa — elevando seu reconhecimento público. A tendência é que Hana siga um padrão institucional convergente”, compara.

O pesquisador destaca que, diferentemente de outros estados, o Pará recompensa continuidade administrativa, desde que acompanhada de investimento, obras e política social. “O que sustenta o fenômeno Helder não é apenas carisma. É entrega. E Hana é parte disso. A população costuma traduzir bons governos em apoio. Esse mecanismo tende a beneficiá-la”, destaca Rafael.

Virada de chave

A tendência bastante comentada nos bastidores é que Hana ganhe enorme exposição quando Helder se afastar temporariamente para compromissos nacionais. Parceira de trabalho desde quando ele foi prefeito de Ananindeua, entre 2005 e 2013, sempre foi reconhecida por sua competência técnica, tanto que foi a primeira escolha de Helder para a Secretaria de Administração do Estado, ainda a Sead – hoje Seplad. O novo momento deve marcar o ponto de inflexão da disputa.

“Se assumir o governo, Hana terá de fazer política como se o dia tivesse 30 horas. Não basta aparecer: precisa traduzir obras em história, números em emoção, gestão em relato humano”, indica o servidor público e cientista político Paulo Sérgio Ribeiro.

“O eleitor paraense, especialmente no interior, reage à presença física e narrativa clara. O povo quer entender como a obra mexe com a vida dele. Esse é o grande exercício. Se Hana conseguir comunicar isso com simplicidade, o desconhecimento dela cai rapidamente”, explica. “O eleitor passará a vê-la diariamente, não mais como vice-governadora, mas como a mulher que decide tudo no estado do Pará, e define, inclusive, as políticas públicas que poderão melhorar sua vida no futuro”, complementa.

Rafael concorda e acrescenta que a ascensão de Hana não será automática — mas tem terreno fértil. “Capital técnico não vira voto sozinho, mas vira voto quando encontra tempo de exposição e um cabo eleitoral com a força do Helder. Essa combinação é rara”, reconhece. “A imagem de Hana tende a ser associada a uma gestora técnica capaz de coordenar projetos complexos, o que pode reforçar a percepção de competência individual. Seu protagonismo será importante para marcar sua atuação na condução de projetos estruturantes do Estado, programas e decisões relevantes, criando uma associação direta entre os resultados e o seu nome”, avalia.

Direita ‘perdida’ e adversários fragmentados

A pesquisa Acertar testou nomes como Éder Mauro, Joaquim Passarinho e Rogério Barra, todos do PL-PA. Quando Éder está no cenário, surge empate técnico triplo entre ele (22,0%), Hana (22,1%) e Daniel Santos (21,7%), prefeito de Ananindeua pelo PSB. Quando ele sai, Daniel cresce. O que revela — segundo os cientistas — a carência de um nome consolidado na direita paraense.

“Mas fica a pergunta: Éder Mauro tem votos no interior ou é só um fenômeno de Belém? Essa resposta vai definir se ele tem chance real de disputar o Palácio dos Despachos. Há também uma estratégia nacional em discussão para a montagem de chapas ao Senado em 2026, o que pode influenciar o tabuleiro local”, pontua Rafael.

Éder Mauro e Joaquim Passarinho Foto: Divulgação

Paulo Sérgio é ainda mais direto. “Não vejo a mínima possibilidade de candidatura do Éder Mauro ao governo. O deputado jamais trocará um assento na Câmara Federal por uma derrota iminente. Minha assertiva parte de algumas variáveis: ele não terá recursos para financiar sua campanha, não tem capilaridade política, não possui um grupo político estruturado, tudo isso tende a minar sua campanha antes de nascer”, aposta.

Sem Éder Mauro no cenário, Rafael menciona Barra com presença forte na base conservadora e Passarinho com capital político consolidado. “São nomes viáveis para manter o PL competitivo”, sugere.

Daniel

O prefeito de Ananindeua, Daniel Santos, aparece sempre bem colocado, mas carrega ambivalências difíceis de sustentar num cenário estadual – é do partido de Geraldo Alckmin, vice de Lula, mas está convenientemente aliado à extrema direita, embora já tenha sido aliado de primeira hora de Helder…

“O eleitor percebe quando o político tenta ser tudo ao mesmo tempo. O Daniel circula no governo Lula, mas também se associa ao bolsonarismo. Em algum momento, isso vai cobrar. Para disputar o governo, ele vai ter de escolher um lado”, diz Ribeiro.

Rafael aponta outro problema: o desgaste por apoiar candidaturas que perderam. “Campanha é narrativa. E apoiar quem perde gera ruído. A eleição de Belém deixou marcas. Isso enfraquece o discurso de autoridade política dele”, recobra, lembrando ainda que Daniel é próximo de Éder Mauro, o que gera incerteza sobre como se posicionará caso o PL tenha candidato ou não.

O maior ativo da disputa é o apoio de Helder Barbalho. Em um estado onde a gestão pesa mais que a ideologia, sua aprovação traduz quase uma “marca política”. Rafael explica que há três níveis de transferência: a orgânica (o eleitor que aprova um governo tende a escolher o sucessor), a ativa (a presença do líder na campanha) e a estrutural (a máquina e a narrativa de continuidade). E ele avalia que Helder tem as três.

“Ao longo de oito anos, o atual governador construiu uma engenharia política impressionante. Conseguiu reunir adversários históricos, trouxe opositores. A escolha de Chicão [MDB] para presidir a Assembleia Legislativa foi sua jogada mais inteligente. No xadrez político paraense, ter sua principal torre controlando o Legislativo é estratégico demais”, desenha.

Para Paulo Sérgio Ribeiro, o apoio de Helder já é, por si só, um vetor de voto. “O governador poderá ser determinante para fazer sua sucessora se sua equipe for capaz de explorar politicamente o volume de trabalho desenvolvido nos últimos sete anos. Ou seja: o eleitor precisa ler, ouvir e compreender o alcance desses projetos”, entende o estudioso.

Hana

A trajetória administrativa de Hana Ghassan ajuda a explicar por que a vice-governadora aparece na pesquisa Acertar com o maior potencial de voto entre todos os nomes testados. Hana acumulou, ao longo dos últimos anos, um portfólio administrativo notável. Assumiu articulações de peso, conduziu agendas estratégicas e participou diretamente de entregas que moldaram a imagem de eficiência do governo Helder Barbalho.

A trajetória administrativa de Hana Ghassan ajuda a explicar por que a vice-governadora aparece na pesquisa Acertar com o maior potencial de voto entre todos os nomes testados.
A trajetória administrativa de Hana Ghassan ajuda a explicar por que a vice-governadora aparece na pesquisa Acertar com o maior potencial de voto entre todos os nomes testados.

O maior exemplo disso é sua liderança estratégica na preparação da COP30, a primeira em um país da América do Sul. Não se trata apenas de planejar um evento: é sobre destravar obras, integrar secretarias, dialogar com governos locais e garantir que o Pará estivesse pronto para receber o maior encontro climático do mundo.

Hana atuou para que projetos como o Parque da Cidade, a Nova Doca, a Nova Tamandaré, os complexos de mobilidade, acessos urbanos, ações de saneamento e qualificação turística saíssem do papel ou avançassem com ritmo político. A COP, nesse sentido, é tanto um evento quanto uma reorganização urbana que exige coordenação fina — e ela foi a responsável por essa engrenagem que, como o mundo inteiro já sabe, deu muito certo.

Esse papel também se evidencia em outro eixo de sua atuação: a articulação com municípios. Hana abriu pontes com prefeituras, câmaras e comunidades do interior, ampliando a presença do governo estadual nos territórios. Atuou para facilitar parcerias para obras e serviços, além de integrar políticas de sustentabilidade, inclusão e educação. Programas de prevenção à violência, ações de saúde mental, fortalecimento comunitário, políticas de inclusão e ampliação de serviços sociais tiveram forte participação dela.

Nesse conjunto, as Usinas da Paz ocupam lugar de destaque. A articulação com secretarias como Saúde, Educação, Assistência Social, Segurança, entre outras, permitiu que os centros oferecessem cursos profissionalizantes, atendimento de saúde e cidadania, inclusão digital, esporte, cultura e ações de redução de vulnerabilidades.

Para o deputado Iran Lima (MDB), líder do governo na Alepa, a força política do governador é incontestável e sua capacidade de transferência de votos será decisiva para a disputa majoritária de 2026 – assim como foi em 2018, quando elegeu dois senadores, feito que o pai dele, o senador Jader Barbalho (MDB) também conseguiu em 1986.

Para o deputado Iran Lima (MDB), líder do governo na Alepa, a força política do governador é incontestável e sua capacidade de transferência de votos será decisiva

“Helder hoje é o governador mais bem avaliado do Brasil. Isso dá a ele um poder de transferência de voto único. E a Hana vem fazendo um trabalho extraordinário, indo a todos os municípios, ouvindo a população, conhecendo de perto problemas e soluções. Ela já visitou praticamente todos os 144 municípios do Pará. Isso faz diferença”, defende.

“O trabalho que ela está fazendo surpreende quem não acreditava que ela colocaria o Pará inteiro no mapa de visitas. Tem liderança, tem disposição, tem preparo. Já tivemos governador que foi três vezes governador e não conheceu 100 municípios. A Hana está perto de conhecer todos”, garante.

Carol Menezes

Repórter

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) desde 2007. É natural de Belém (PA) e repórter do jornal Diário do Pará desde 2013. Atua em cobertura nas editorias de Cidades, Política, Economia e Cultura. Desde 2020 também redige a coluna Linha Direta, seguinte ao Repórter Diário, de terça a domingo. Prêmio Fiepa 2016 de Melhor Repórter de Jornalismo Impresso.

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) desde 2007. É natural de Belém (PA) e repórter do jornal Diário do Pará desde 2013. Atua em cobertura nas editorias de Cidades, Política, Economia e Cultura. Desde 2020 também redige a coluna Linha Direta, seguinte ao Repórter Diário, de terça a domingo. Prêmio Fiepa 2016 de Melhor Repórter de Jornalismo Impresso.