Frase de Friedrich Merz contra Belém provocou revolta nas redes sociais. Helder afirmou que a declaração foi "discurso preconceituoso". Foto: Divulgação
Frase de Friedrich Merz contra Belém provocou revolta nas redes sociais. Helder afirmou que a declaração foi "discurso preconceituoso". Foto: Divulgação

Após deixar o Brasil, onde participou, em Belém, da Cúpula dos Líderes, o chanceler alemão, Friedrich Merz, parece ter tirado o terno e vestido a farda. Em tom deselegante, ele comparou o Brasil com a Alemanha durante um discurso no Congresso Alemão do Comércio no último dia 13 e disse que os jornalistas alemães que o acompanharam na Cúpula dos Líderes, que antecedeu a COP30, realizada em Belém, ficaram felizes de ir embora da cidade. A fala foi vista como desrespeitosa pelas autoridades e reavivou alertas diplomáticos.

No discurso feito no Congresso Alemão do Comércio, Merz disse em tradução literal: “Senhoras e senhores, nós vivemos em um dos países mais bonitos do mundo. Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: ‘Quem de vocês gostaria de ficar aqui?’ Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, na noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos — disse ele aos membros do setor, presentes no congresso.

“Aquele lugar onde estavam” era Belém, capital do Pará, uma das cidades mais antigas e historicamente ricas do Brasil, fundada em 12 de janeiro de 1616 pelos portugueses, com mais de 400 anos de existência. Sua história é um pilar fundamental na ocupação e desenvolvimento da região amazônica.

Belém desempenhou um papel crucial como entreposto fiscal no século XVII, supervisionando o comércio entre a Amazônia e a Europa. Durante o Ciclo da Borracha, no século XIX e início do século XX, a cidade viveu seu período de maior esplendor econômico e cultural, impulsionado pelo auge da extração da borracha – sim, borracha que contribui para o crescimento das indústrias automobilísticas alemãs 

DISCURSO PRECONCEITUOSO

O governador Helder Barbalho afirmou que a declaração foi “um discurso preconceituoso”, vindo de um país que “ajudou a aquecer o planeta”. “Curioso ver quem ajudou a aquecer o planeta estranhar o calor da Amazônia”, completou Helder.

“O Pará abriu as portas e mostrou a força de um povo acolhedor. Um discurso preconceituoso revela mais sobre quem fala do que sobre quem é falado. O futuro pede menos promessas e mais apoio concreto para quem protege as florestas. Aproveito para fazer outra pergunta: quem aqui tem orgulho do Pará e do Brasil? Que levante a mão e comente contra toda forma de preconceito”, escreveu Helder Barbalho.

A fala do governador foi publicada nas redes sociais e repercutiu entre internautas e veículos de imprensa nacionais, que destacaram o confronto entre o comentário do chanceler e a postura das autoridades locais.

INFELIZ E DESCONECTADO

Quem também manifestou desprezo à fala do alemão foi o  prefeito de Belém, Igor Normando, que classificou o comentário como infeliz e desconectado da realidade de uma cidade que recebe delegações internacionais e tem papel simbólico na agenda global do clima.

Normando lembrou que, felizmente, a fala do chanceler “não representa o que a maioria da população do mundo inteiro acha da nossa cidade”, e também chamou o discurso de Merz de preconceituoso, além de infeliz e arrogante.

“Enquanto você vem com a sua arrogância, nós paraenses, belenenses e amazônidas vamos oferecer o que existe de melhor em nós, que é o nosso calor humano, o nosso acolhimento e o nosso amor. Cada um dá o que tem”, disse o prefeito, em um vídeo publicado nas suas redes.

REAÇÃO NAS REDES

Nas redes sociais, o episódio rapidamente ganhou tração: usuários comentaram a fala de Merz com tom crítico, lembrando que Belém é uma capital histórica e ponto de convergência para discussões científicas e diplomáticas, e que a impressão deixada pelo chanceler pode sair pela porta de embarque, mas o legado da cidade permanece.

“Se Merz estivesse tão atento ao próprio quintal quanto está à floresta amazônica, lembraria que seu país ainda convive com cicatrizes abertas de racismo e extremismo de direita. Belém, com todos os desafios que carrega, não registrou nada comparável aos episódios de 2020 em Hanau, quando um supremacista branco assassinou nove pessoas em bares frequentados por imigrantes. Tampouco enfrentou revoltas como as de Chemnitz, em 2018, quando grupos neonazistas marcharam pelas ruas atacando pessoas não brancas sob aplausos de extremistas locais”, escreveu um internauta.

Há anos intelectuais alemães alertam para a necessidade de combater a xenofobia cotidiana e o ressurgimento do nacionalismo tóxico. Mas parece que Merz, ocupado demais em fazer piadinha sobre o Norte do Brasil, não se deu o trabalho de refletir sobre isso.

Ironia das ironias: enquanto Merz tenta ridicularizar Belém, são seus próprios conterrâneos que vêm às redes sociais dizer que a fala do chanceler é justamente o tipo de arrogância que mancha a imagem internacional da Alemanha.

A repercussão nas redes foi certeira e sem medo de cutucar: usuários lembraram que quem deveria estar “feliz em voltar para casa” é justamente quem não consegue lidar com a diversidade e a mistura que define o Brasil — especialmente a Amazônia. “Se ele acha Belém difícil, queria ver ele no meio de uma marcha neonazista em Dresden”, escreveu um internauta.Outro comentou: “A diferença é que aqui a gente recebe malandro com açaí; lá, o povo recebe com saudação de braço esticado.”