Fé que move canoas: histórias que marcaram o Círio das Águas deste ano
Fé que move canoas: histórias que marcaram o Círio das Águas deste ano. Foto: Irlaine Nóbrega

Dezenas de fiéis seguiram em romaria em mais um Círio Fluvial de Nossa Senhora da Conceição, em Caraparu, distrito de Santa Izabel do Pará. Conhecido como “Círio das Águas”, a procissão navegou o rio de mesmo nome após a Alvorada, às 5h, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Logo em seguida, às 6h, a imagem foi conduzida ao barco berlinda, onde recebeu homenagens ao longo de todo trajeto. A procissão foi marcada pela emoção dos devotos que pediram e agradeceram pela intercessão da padroeira. 

Com o tema “Com Maria Imaculada, Somos Peregrinos da Esperança”, esta foi a 107a edição do Círio de Caraparu, uma tradição centenária, iniciada em 1919, em forma de devoção à Imaculada Conceição. Após a cerimônia de abertura, a imagem da padroeira saiu da Orla de Caraparu, às 6h, percorrendo o rio de águas escuras conduzida em uma canoa puxada por jovens vestidos de marujos.

O trajeto fluvial seguiu rumo à Comunidade do Cacau, onde ocorreu uma pequena celebração, na capela local. Após este momento, a imagem peregrina foi conduzida novamente à orla, onde recebeu as devidas homenagens. A procissão ainda seguiu pelas ruas do bairro, com fim em frente a Igreja da Imaculada Conceição, onde foi celebrada uma missa campal. 

DEVOÇÃO 

A tradição centenária do Círio de Caraparu segue viva graças à devoção de moradores que dedicam tempo, trabalho e fé para manter o festejo. Este é o caso do lavrador Ajailson Varjão, 58, conhecido na comunidade como o fogueteiro da romaria, que há 30 anos assume a responsabilidade de soltar foguetes durante todo o trajeto da procissão fluvial. A prática começou por acaso, após o antigo fogueteiro da romaria abandonar o cargo. Convidado para assumir a função, ele transformou o imprevisto em compromisso anual e símbolo de devoção.

A Fé que Move o Círio Fluvial

“Eu comecei meio sem querer. O fogueteiro da época adoeceu, o piloto me chamou e eu fui. Nunca tinha soltado foguete, mas deu tudo certo. No ano seguinte, o homem não voltou mais, aí eu continuei. E desde então, todo ano eu venho, graças a Deus, sem nunca ter acontecido um acidente comigo”, contou Ajailson, que lembrou até do susto de um dos primeiros anos, quando um foguete industrial estourou na canoa e obrigou a equipe a nadar até a margem. “Eu disse que não vinha mais, mas no outro ano lá estava eu de novo”, relembrou. 

A preparação envolve compra e organização dos fogos, que antes chegavam a cinco glosas por ano, cerca de 240 unidades de foguetes. Com as novas regulamentações e preocupação com animais e pessoas autistas, esse número caiu para duas glosas, o equivalente a 24 dúzias de foguete. “Ainda assim, é tradição. A gente segue com fé. Quero vir enquanto Deus permitir. Se eu chegar a 80% do que minha mãe foi de devoção, já estou feliz”, afirmou o lavrador. 

Além de fogueteiro, Ajailson integra o grupo responsável pela manutenção da canoa que conduz a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Há cerca de 15 anos, ele e outros devotos decidiram que toda a mão de obra seria voluntária: calafeto, pintura e reparos. “A gente só pede o material, o trabalho é de graça, feito por nós. Hoje tem vários marinheiros ajudando, cada grupo com sua função: o da cozinha, o do enfeite da rua, o dos fogos, o da canoa. É assim que o Círio acontece, com cada um fazendo sua parte”, explicou. 

Testemunhos de Fé e Agradecimentos

AGRADECIMENTOS

O pedido em prol da saúde da filha, de 14 anos, foi a promessa firmada entre Ana Silva, 37, e Nossa Senhora da Conceição durante o nascimento da menina. “Minha filha nasceu praticamente morta”, relembrou a dona de casa, que intercedeu a santa: se a menina ficasse bem e crescesse com saúde, pagaria a promessa no Círio de Caraparu. Junto dos familiares, este foi o segundo ano que ela cumpriu com a promessa também na companhia da filha, hoje uma adolescente, momento em que agradeceu pela graça concedida pela santa. 

“A minha filha nasceu praticamente morta. O médico chegou a me dizer que ela tinha nascido morta. Então, eu me peguei com Nossa Senhora da Conceição e disse que se Ela me ajudasse, se a minha filha sobrevivesse, eu colocaria o nome dela como Maria e um dia eu viria para agradecer. Hoje está aqui a Maria com 14 anos e com saúde. Eu só tenho a agradecer por tudo o que ela tem feito em nossa vida, e por esse ano que não foi fácil pra ninguém. Agradecemos a Ela e a Deus pela vida e a saúde, o resto a gente corre atrás”, disse. 

A Promessa de Ana Silva

Vestida de anjinho, a pequena Alice era a prova da graça alcançada por intermédio da Senhora da Conceição. Após dois anos de tentativas sem sucesso, Lilian Faro, 29, conseguiu realizar um sonho: engravidar da criança. Nascida e criada em Caraparu, a autônoma resolveu, então, agradecer a padroeira pela maternidade e, na ocasião, levou a menina em seu primeiro “Círio das Águas”, tradição que pretende manter por muitos anos. 

“Eu não sabia se eu poderia engravidar, já tinha tentado, desisti e aí ano passado ela veio para a gente. Esse ano eu estou vindo agradecer por ela. Eu sempre participei da procissão, vinha desde a infância com a minha família. Hoje é muito importante estar aqui e agradecer por tudo, pelas realizações de sonhos, por ela ser minha filha e muitas outras graças alcançadas”, revelou.