
Arthur do Val – sim, ele, o ex-deputado cassado por quebra de decoro, declarado inelegível por oito anos e ainda respondendo a processos – resolveu aparecer em pleno palco da COP30, em Belém. O homem que se tornou infame pelos áudios em que dizia que mulheres ucranianas refugiadas eram “fáceis porque são pobres” achou que seria boa ideia abordar uma ministra em exercício. E não qualquer ministra: Anielle Franco, titular da Igualdade Racial.
A ousadia é quase poética. Um político sem cargo, sem mandato e sem pudor — que virou sinônimo de misoginia — achou que merecia um minuto de atenção no maior evento ambiental do planeta. A resposta de Anielle foi digna e cirúrgica: “Quando você aprender a cuidar de mulher, você fala comigo, amigo.”
E seguiu o baile: chamou o ex-deputado de “assediador”, lembrou seu histórico e perguntou o que um negacionista estava fazendo ali. O sujeito insistiu, tentando arrancar uma reação — afinal, nas redes sociais, o importante é o clique, não o caráter. “Você nem deveria falar com mulheres, nunca respeitou mulheres. Pra que aborda mulheres? Você se esconde atrás de uma imagem que você não tem.”
O ministro Guilherme Boulos, também abordado pelo youtuber, não perdeu a chance de resumir a cena com ironia precisa: “Cansou de assediar mulheres da Ucrânia, agora vem assediar em Belém. Gente, tomem cuidado, tem um assediador na área.”
REDES SOCIAIS OU TERRA DE NINGUÉM
Mas o que realmente chama atenção é o palco em que tudo isso acontece: as redes sociais, o mesmo espaço que transforma assediadores em “influenciadores”, que permite provocações em “conteúdo” e cassações em “perseguição política”.
Arthur do Val não tem mais mandato, mas ainda tem câmera e Wi-Fi — e, no mundo invertido das redes, isso basta para continuar sendo notícia. Um “quase ninguém” com megafone, multiplicando absurdos em nome do engajamento.
Enquanto isso, figuras públicas sérias como Anielle Franco precisam perder tempo respondendo a provocadores que deveriam estar fora do debate público — e não dentro dele, transmitindo ao vivo o próprio vexame.
Esse episódio, em plena COP30, é mais do que um embate político: é um espelho do nosso tempo. Onde o descrédito rende seguidores, e o respeito, silêncio.’
QUEM É ELE
Arthur do Val ficou conhecido como “Mamãe Falei”, youtuber e ex-integrante do MBL (Movimento Brasil Livre). Elegeu-se deputado estadual por São Paulo em 2018, surfando na onda do antipetismo e do discurso “liberal”.
Mas sua carreira política desmoronou em 2022, quando vazaram áudios em que ele dizia que mulheres ucranianas refugiadas eram “fáceis porque são pobres” — comentários amplamente condenados por serem machistas e desumanos.
O caso levou a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) a abrir um processo por quebra de decoro parlamentar, resultando na cassação unânime de seu mandato. Com isso, ele se tornou inelegível por oito anos.
Desde então, Arthur tenta sobrevive como “influenciador político”, colecionando polêmicas, processos e aparições constrangedoras — como essa mais recente, em que abordou a ministra Anielle Franco durante a COP30, em Belém.