Morador denuncia situação na Avenida Ananin. Foto: frame WhatssApp
Morador denuncia situação na Avenida Ananin. Foto: frame WhatssApp

As ruas de Ananindeua, segunda maior cidade do Pará, expõem hoje uma contradição que salta aos olhos: enquanto montanhas de lixo se acumulam em esquinas, canais e áreas residenciais, o prefeito Daniel Santos viajou a Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores entre Flamengo e Palmeiras.

As cenas de sujeira acumulada nas ruas sintetizam um colapso urbano que se agravou nos últimos meses, colocando o município novamente entre os piores indicadores de saneamento básico do país, segundo levantamentos do Instituto Trata Brasil — organização que há anos alerta para o desempenho crítico da cidade.

A população paga taxa de lixo, mas convive com coleta irregular, descarte clandestino crescente e bairros inteiros tomados por sujeira, mau cheiro e riscos sanitários.

O problema se espalha por diversos pontos de Ananindeua: resíduos que não são recolhidos no prazo, entulho despejado por carroceiros em terrenos baldios, lixo acumulado em frente a prédios públicos, bueiros entupidos e insetos proliferando às margens de vias movimentadas.

Moradores denunciam que caminhões de coleta têm passado com menos frequência, deixando dias e até semanas de acúmulo. O resultado é visível, documentado em vídeos, postagens e fotografias que circulam nas redes sociais, evidenciando que a crise na limpeza urbana já ultrapassou o limite do aceitável. Em alguns bairros, o forte odor e a presença de ratos tornaram-se parte do cotidiano.

O contraste entre o abandono do serviço básico e as prioridades recentes do governo municipal escancara a dimensão da crise. No mês passado, mesmo em meio ao descontrole na coleta, ao risco sanitário e às queixas sobre a precarização dos serviços públicos — saúde, limpeza e manutenção viária entre eles — o prefeito tentou realizar uma licitação de até R$ 30 milhões para contratar uma empresa especializada em “eventos para grande público”.

O processo previa palcos, estruturas e produções de grande porte, com foco especial em 2026, ano eleitoral. A iniciativa provocou reação imediata de moradores e especialistas em contas públicas, que classificaram o certame como incompatível com a realidade de um município que enfrenta dívidas, acúmulo de lixo e serviços essenciais comprometidos.

Entre os Piores do País

O Instituto Trata Brasil, referência nacional em saneamento, aponta o desempenho de Ananindeua entre os piores do país nos indicadores de coleta e tratamento de esgoto, abastecimento de água e manejo de resíduos. O município figura de forma recorrente na parte inferior do ranking das 100 maiores cidades brasileiras, refletindo falhas históricas de planejamento, investimento e gestão. Apesar disso, os moradores continuam pagando taxa de lixo, cobrando um serviço que, na prática, não chega como deveria — e que nos últimos meses tende ao colapso.

Desde 2023, a cidade atravessa uma crise operacional sem precedentes. Empresas de coleta chegaram a interromper serviços após calotes da prefeitura. Hospitais reduziram atendimentos do SUS, e até radares de trânsito tiveram sua retirada cogitada por falta de pagamento. Nesse cenário, a imagem de um prefeito viajando ao exterior em meio à sujeira generalizada reforça a sensação de abandono.

Com o lixo espalhado pelas ruas, alagamentos agravados, focos de doenças e prejuízos diários à qualidade de vida da população, a ausência de respostas efetivas por parte da administração municipal aprofunda o descrédito e o desespero dos moradores.

Neste momento, Ananindeua vive uma emergência que não pode ser varrida para debaixo do tapete — nem ofuscada por viagens internacionais ou projetos milionários de entretenimento. Enquanto a cidade afunda no lixo, a população paga a conta, denuncia o descaso e exige que a prefeitura cumpra o básico: garantir que suas ruas não se tornem depósitos de resíduos a céu aberto e que a saúde pública não continue sendo sacrificada pela negligência de quem deveria cuidar da cidade.

Menor Investimento Per Capita

O resultado mais recente do Instituto Trata Brasil sobre Ananindeua mostra que o município tem o menor investimento per capita em saneamento básico entre os 20 piores colocados no Ranking do Saneamento 2025, investindo apenas R$ 46,51 por habitante por ano. Esse baixo investimento é um fator crítico, especialmente considerando que o município está na Região Norte, onde os investimentos são, em média, quase três vezes menores do que o necessário para a universalização até 2033, conforme o resumo executivo do ranking.

O Instituto Trata Brasil destaca que é fundamental intensificar os investimentos nas regiões Norte e Nordeste para melhorar os indicadores de acesso à água e coleta e tratamento de esgoto, ressalta o Instituto Trata Brasil.

Veja o vídeo em que um morador mostra a situação na Avenida Ananin: