
Com a velha lembrança de que “príncipe encantado” hoje só existe nos contos que a gente lia na casa da avó — e olhe lá — a Polícia Civil do Distrito Federal acendeu um alerta vermelho para o golpe que transformou o suposto herói fortão de Hollywood em um sapo bem rechonchudo, disposto a sugar até o último centavo de mulheres solitárias e esperançosas. Na última quarta, 3, PCDF deflagrou a operação The Rock e desarticulou um esquema de estelionato eletrônico que já deixou vítimas arrasadas emocionalmente e financeiramente em vários estados.
O investigado, Honore Ode, de 32 anos, natural do Benim, na África Ocidental, e morador de Santa Catarina, cursava cinema enquanto construía, paralelamente, um roteiro criminoso de cair o queixo. Usando perfis falsos nas redes sociais — especialmente no TikTok — se passava pelo ator Dwayne Johnson, o “The Rock”, com direito a fotos reais, mensagens afetuosas e aquele charme digital que qualquer pessoa cansada de solidão poderia confundir com sorte grande. Tudo calculado, tudo milimetricamente pensado para fisgar corações… e esvaziar contas bancárias.
A engrenagem emocional começava com simpatia e atenção diária, evoluía para supostos vínculos afetivos e culminavam no golpe clássico do “prêmio internacional”: 800 mil euros (cerca de R$ 4,9 milhões) que as vítimas teriam “ganhado”, patrocinados pelo próprio ator. Para liberar o dinheiro — sempre “quase lá” — era preciso pagar taxas, seguros, documentos, entrevistas. Uma novela repetida, mas ainda muito eficiente.
Foi assim que uma moradora da Vila Estrutural, desempregada e buscando algum sopro de esperança, acabou enviando seus documentos pessoais e fazendo nove transferências via Pix entre 28 de agosto e 15 de setembro de 2025, somando R$ 9,78 mil. Cada novo pedido vinha com justificativas mirabolantes e tom urgente: R$ 2,85 mil de “taxa internacional”; R$ 1,5 mil por um “acidente” com o caminhão da transportadora; R$ 1 mil para completar o seguro; R$ 550 para “liberar a entrega”; R$ 1,35 mil para uma “entrevista obrigatória”; R$ 1,53 mil de “taxas alfandegárias adicionais”; e assim por diante, sempre com a pressão emocional de quem se diz preocupado, mas quer mesmo é drenar a vítima.
Outras Vítimas e a Operação The Rock
Outra mulher, em Minas Gerais, perdeu cerca de R$ 80 mil no mesmo golpe. O padrão se repetia: múltiplas contas bancárias, números internacionais, valores fracionados, documentos falsificados e imagens adulteradas criavam a falsa impressão de seriedade, enquanto escondiam uma estrutura criminosa ativa e insistente.
A operação The Rock cumpriu mandados de busca e apreensão em Florianópolis e Itajaí, além da prisão preventiva do investigado. Celulares, computadores e outros dispositivos foram recolhidos e passarão por perícia para identificar novas vítimas. Honore Ode responderá por estelionato eletrônico, crime que prevê pena de quatro a oito anos de prisão, além de multa.
Alerta contra Golpes Online
E fica o aviso, sem rodeios e sem açúcar: não existe mais príncipe encantado chegando pela janela do TikTok, tampouco milionário distribuindo fortuna por mensagem privada. O que existe — e em abundância — são golpistas fantasiados de amor, prontos para explorar fragilidades. Antes de acreditar em promessas brilhantes, desconfie. Antes de transferir qualquer valor, pare. E, acima de tudo, lembre-se: quando o sapo se apresenta como rei, é quase sempre porque está faminto — e o banquete é você.
Editado por Luiz Octávio Lucas