
Sipriano Ferraz, presidente do Hospital das Clínicas Gaspar Viana e ex-secretário adjunto da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), realizou uma palestra na tarde de hoje no “Pavilhão Pará” da Green Zone da COP 30, onde mostrou aos participantes do Pará, do Brasil e do mundo que vieram para a conferência o quanto é complexo fazer saúde num Estado como Pará e na região amazônica.
“Você imaginou como é difícil se prover saúde onde a estrada é um rio? Pois essa é a nossa realidade. Estamos no segundo maior estado do Brasil, com uma baixíssima densidade populacional, com pessoas vivendo no leito dos rios, dentro de quilombos, dentro de áreas de difícil acesso e em longos trajetos de estrada. Então não temos como comparar a dificuldade de prover saúde, na região amazônica, com qualquer outro lugar do mundo”, comparou.
Ferraz citou como exemplo o município de Altamira, considerado o maior município do Brasil e o terceiro maior do mundo, onde funcionam dois hospitais estaduais, sendo um na sede do município e o outro num distrito chamado Castelo dos Sonhos, que ficam a 1.000 km de distância um do outro dentro do mesmo município. “São coisas que só existem aqui na região Amazônia”, afirmou.
Sipriano também lembrou de Abaetetuba, que possui 150.000 habitantes sendo que metade reside na sede do município e os outros 75.000 divididos em 72 ilhas. “Imagine ter que vacinar 75.000 pessoas que moram em mais de 70 ilhas…. Ou se você leva uma picada de cobra e está a 10, 12 horas da sede do município de barco…É uma realidade muito complicada, muito complexa, que muitas vezes para nós virar rotina, mas que pro mundo não é”.
O presidente do HC mostrou a importância que o mundo saiba dessa realidade “para que os organismos que financiam o clima não esqueçam da saúde e que também e também ajudem a implementar políticas para a melhoria na saúde da população vulnerável da região amazônica como um todo”, justifica.

Desafios e complexidades da saúde na Amazônia
O exemplo das enchentes que vêm sendo cada vez mais frequentes na região do Marajó, uma das regiões mais vulneráveis da Amazônia e onde são registrados os menores índices de desenvolvimento humano também foram citados na palestra.
“Todo esse contexto traz junto o aumento de doenças que aumentam a vulnerabilidade infantil, agravando sua saúde. Precisamos de estratégias para cuidar da população que vive nos centros urbanos, mas não podemos esquecer as regiões mais vulneráveis do nosso Estado, como o Marajó”, cita.
Ações da Sespa para garantir o acesso à saúde
Para ilustrar como a saúde do Estado atua hoje, Sipriano diz que a Sespa mantém uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Aérea para buscar quase todos os dias pacientes na ila do Marajó, e na região da Calha Norte, na fronteira do Pará com o Amazonas; e outras duas aeronaves para o resto do Pará inteiro.
“Sou presidente do Hospital do Coração do Estado e rotineiramente preciso buscar pacientes que estão a 3 horas de distância de Belém, na região sul do Pará. São 3 horas de UTI Aérea pra buscar e mais 3 horas para levar de volta. É uma rotina muito cara e complexa que nós precisamos chamar a atenção do mundo para que os financiamentos climáticos não esqueçam da saúde da população vulnerável da Amazônia”, aponta.
Editado por Luiz Octávio Lucas