São 30 restaurantes participantes, com diversos tipos de gastronomia, oferecendo entrada, prato principal e sobremesa por R$ 79,90. Tudo com a qualidade e os sabores que os clientes já conhecem!
Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

Belém não está cara. Caro é o preconceito. E se a COP30 tem um propósito, é justamente o de mostrar que o valor da Amazônia não se mede em cifras, mas em respeito.

Os altos preços cobrados por refeições em Belém durante os preparativos para a COP30 vêm gerando indignação e debate público. Enquanto autoridades locais se mobilizam para receber o maior evento ambiental do planeta, visitantes e moradores relatam valores que extrapolam a realidade econômica da capital paraense — e, pior, alimentam uma narrativa preconceituosa e xenófoba que coloca o Pará sob o estigma da exploração e da desorganização.

Quando comer vira luxo

Nos últimos meses circularam nas redes sociais imagens e relatos de refeições simples custando de R$ 70 a R$ 150 em restaurantes próximos às áreas da COP, sobretudo nos bairros de Nazaré e Umarizal, onde se concentram hotéis, espaços de eventos e sedes diplomáticas temporárias. Nos últimos dias foi a vez dos lanches, refeições e bebidas servidos nos espaços onde está sendo realizada a COP 30.

A situação causou espanto, mas especialistas em economia e empresários do setor explicam que há razões estruturais por trás dessa escalada:

• O custo logístico elevado de transporte de insumos para a região Norte;

• O aumento nos aluguéis comerciais nas zonas turísticas de Belém;

• E a demanda repentina de um público internacional, que exige cardápios mais sofisticados e ingredientes de origem rastreável.

O problema é que, na prática, muitos estabelecimentos aplicaram reajustes sem proporcionalidade, aproveitando o fluxo de visitantes para inflar preços — uma prática comum em grandes eventos, mas que aqui ganhou contornos de exclusão social.

O peso do preconceito e a caricatura do “Pará caro”

O que poderia ser uma discussão econômica virou, em parte da imprensa nacional, um episódio de preconceito regional. Publicações e comentários insinuando que “Belém não está pronta” ou que “paraenses se aproveitam de turistas” reforçam uma visão distorcida e histórica: a de que o Norte é incapaz de se organizar, de que o povo local é oportunista, e de que o Pará seria um “exótico improviso tropical” — uma caricatura injusta e, sobretudo, xenófoba.

O fato é que o custo de viver, produzir e comercializar na Amazônia é mais alto do que em qualquer outra região do país. O transporte fluvial encarece alimentos perecíveis; a energia, muitas vezes subsidiada, sofre com flutuações; e o pequeno produtor ainda enfrenta gargalos logísticos e falta de acesso a crédito e distribuição. Em resumo: a refeição paraense custa caro porque o sistema nacional encarece o Norte, não porque o paraense quer lucrar com o turista.

Um retrato de contrastes

Enquanto visitantes internacionais se hospedam em hotéis de luxo e consomem menus elaborados com ingredientes da floresta, grande parte dos moradores de Belém lida com inflação alimentar local e a impossibilidade de frequentar os mesmos espaços.

O que deveria ser um momento de orgulho coletivo — sediar a COP na Amazônia — acaba revelando as desigualdades históricas que o evento prometia combater.

Há, entretanto, iniciativas tentando equilibrar essa conta mas que são ignoradas por grande parte da mídia nacional:

• Restaurantes populares e feiras gastronômicas comunitárias vêm oferecendo refeições a preços acessíveis, com produtos regionais;

• Chefs locais defendem que a COP é oportunidade para valorizar a economia da floresta e não para afastar a população dela;

• E o próprio governo estadual estuda medidas de incentivo à gastronomia regional sustentável, com foco em inclusão e regulação.

COP30: entre a vitrine global e o espelho da realidade

A polêmica dos preços da alimentação durante a COP30 é mais do que um problema pontual de mercado — é um reflexo da desigualdade estrutural entre o Brasil que consome e o Brasil que produz.

O Pará, que fornece energia, minério e biodiversidade para o mundo, agora é retratado como vilão por cobrar caro por um prato de peixe.

Mas o que está em jogo é muito mais do que o preço de uma refeição. Trata-se do direito de o Norte existir sem ser estigmatizado, de a Amazônia ser palco, e não apenas paisagem, de um debate global sobre justiça climática — que começa também pela justiça social e econômica.

Luiz Flávio

Paraense, natural de Belém (PA), graduado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA) desde 1997. Repórter Especial do jornal Diário do Pará, onde atua desde 1995 na cobertura das editorias de Política, Economia e Cidades. Possui desde 2013 a coluna “Justiça em Fatos”, especializada em notícias jurídicas locais e nacionais, publicada no jornal aos domingos.

Paraense, natural de Belém (PA), graduado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA) desde 1997. Repórter Especial do jornal Diário do Pará, onde atua desde 1995 na cobertura das editorias de Política, Economia e Cidades. Possui desde 2013 a coluna “Justiça em Fatos”, especializada em notícias jurídicas locais e nacionais, publicada no jornal aos domingos.