
Belém não está cara. Caro é o preconceito. E se a COP30 tem um propósito, é justamente o de mostrar que o valor da Amazônia não se mede em cifras, mas em respeito.
Os altos preços cobrados por refeições em Belém durante os preparativos para a COP30 vêm gerando indignação e debate público. Enquanto autoridades locais se mobilizam para receber o maior evento ambiental do planeta, visitantes e moradores relatam valores que extrapolam a realidade econômica da capital paraense — e, pior, alimentam uma narrativa preconceituosa e xenófoba que coloca o Pará sob o estigma da exploração e da desorganização.
Quando comer vira luxo
Nos últimos meses circularam nas redes sociais imagens e relatos de refeições simples custando de R$ 70 a R$ 150 em restaurantes próximos às áreas da COP, sobretudo nos bairros de Nazaré e Umarizal, onde se concentram hotéis, espaços de eventos e sedes diplomáticas temporárias. Nos últimos dias foi a vez dos lanches, refeições e bebidas servidos nos espaços onde está sendo realizada a COP 30.
A situação causou espanto, mas especialistas em economia e empresários do setor explicam que há razões estruturais por trás dessa escalada:
• O custo logístico elevado de transporte de insumos para a região Norte;
• O aumento nos aluguéis comerciais nas zonas turísticas de Belém;
• E a demanda repentina de um público internacional, que exige cardápios mais sofisticados e ingredientes de origem rastreável.
O problema é que, na prática, muitos estabelecimentos aplicaram reajustes sem proporcionalidade, aproveitando o fluxo de visitantes para inflar preços — uma prática comum em grandes eventos, mas que aqui ganhou contornos de exclusão social.
O peso do preconceito e a caricatura do “Pará caro”
O que poderia ser uma discussão econômica virou, em parte da imprensa nacional, um episódio de preconceito regional. Publicações e comentários insinuando que “Belém não está pronta” ou que “paraenses se aproveitam de turistas” reforçam uma visão distorcida e histórica: a de que o Norte é incapaz de se organizar, de que o povo local é oportunista, e de que o Pará seria um “exótico improviso tropical” — uma caricatura injusta e, sobretudo, xenófoba.
O fato é que o custo de viver, produzir e comercializar na Amazônia é mais alto do que em qualquer outra região do país. O transporte fluvial encarece alimentos perecíveis; a energia, muitas vezes subsidiada, sofre com flutuações; e o pequeno produtor ainda enfrenta gargalos logísticos e falta de acesso a crédito e distribuição. Em resumo: a refeição paraense custa caro porque o sistema nacional encarece o Norte, não porque o paraense quer lucrar com o turista.
Um retrato de contrastes
Enquanto visitantes internacionais se hospedam em hotéis de luxo e consomem menus elaborados com ingredientes da floresta, grande parte dos moradores de Belém lida com inflação alimentar local e a impossibilidade de frequentar os mesmos espaços.
O que deveria ser um momento de orgulho coletivo — sediar a COP na Amazônia — acaba revelando as desigualdades históricas que o evento prometia combater.
Há, entretanto, iniciativas tentando equilibrar essa conta mas que são ignoradas por grande parte da mídia nacional:
• Restaurantes populares e feiras gastronômicas comunitárias vêm oferecendo refeições a preços acessíveis, com produtos regionais;
• Chefs locais defendem que a COP é oportunidade para valorizar a economia da floresta e não para afastar a população dela;
• E o próprio governo estadual estuda medidas de incentivo à gastronomia regional sustentável, com foco em inclusão e regulação.
COP30: entre a vitrine global e o espelho da realidade
A polêmica dos preços da alimentação durante a COP30 é mais do que um problema pontual de mercado — é um reflexo da desigualdade estrutural entre o Brasil que consome e o Brasil que produz.
O Pará, que fornece energia, minério e biodiversidade para o mundo, agora é retratado como vilão por cobrar caro por um prato de peixe.
Mas o que está em jogo é muito mais do que o preço de uma refeição. Trata-se do direito de o Norte existir sem ser estigmatizado, de a Amazônia ser palco, e não apenas paisagem, de um debate global sobre justiça climática — que começa também pela justiça social e econômica.