
Em audiência pública realizada em outubro pela Comissão de Educação e Cultura (CE) do Senado Federal, debatedores criticaram a viabilidade e os efeitos da PL 4.606/2019, que propõe proibir qualquer alteração, adaptação, edição, supressão ou adição nos textos da Bíblia Sagrada — independentemente da versão, tradução ou idioma.
Críticos da proposta — entre teólogos, juristas e representantes de diferentes denominações religiosas — alertaram para os problemas práticos e constitucionais da medida. O diretor-executivo da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), por exemplo, ressaltou que a Bíblia já passou por adaptações históricas: o hebraico original não continha vogais e a divisão em capítulos e versículos foi introduzida muito depois.
Também foi questionada a definição de “versão original” da Bíblia — pois há dezenas de traduções e edições em português e em línguas indígenas, o que tornaria a lei de difícil aplicação.
Do ponto de vista jurídico, foi destacado que a proposta conflita com o princípio do Estado laico e pode ferir a liberdade religiosa garantida na Constituição, ao conferir ao Estado o papel de “guardião teológico” de um texto sagrado. Houve críticas também à ausência de interesse público claro para justificar tamanho aprofundamento legislativo.
Dúvidas e Viabilidade do Projeto
Em síntese, a audiência evidenciou que o PL, embora nasça de um apreço religioso, levanta sérias dúvidas sobre sua viabilidade prática, coerência teológica, compatibilidade legal e respeito à pluralidade cultural e religiosa do país — fatores que, para muitos debatedores, tornam a proposta inadequada aos valores de uma democracia pluralista.
Autores e relatoria
O projeto, de autoria do Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), já havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados e recebeu parecer favorável na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, com relatoria do Magno Malta (PL-ES).
Na CE, a relatora é a senadora Dra. Eudócia (PL-AL), e a audiência foi convocada pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF).