
Eu acho, no mínimo, peculiar como a Netflix lança suas boas produções, que se sobressaem em meio à enxurrada de conteúdos genéricos, mas são sabotadas pelo próprio modelo de negócios da líder do streaming, que prefere investir em catálogos gigantescos e na publicidade dos seus enlatados mais famosos.
Enquanto isso, obras sensíveis e particulares, como “O Filho de Mil Homens”, ficam soterradas dentro do algoritmo da plataforma. O que é uma pena, pois o filme do competente Daniel Rezende (Bingo – O Rei das Manhãs e Turma da Mônica) é único no desafio de transpor para as telas a obra literária de Valter Hugo Mãe.
A obra começa com o personagem principal, Crisóstomo, como um homem solitário e frustrado por não ter uma família, que cria um boneco para tentar espantar a solidão, até que um dia, conhece um grupo de pessoas, que personificam um núcleo familiar único e complexo. Rodrigo Santoro exibe todo o seu talento com sensibilidade ao interpretar o homem como uma figura única, até infantil, mas que guarda uma bondade absoluta diante do mundo.
Além de criar um vínculo paterno com um garoto órfão, acabam cruzando seu caminho outros personagens: uma moça rejeitada pela sociedade machista (Rebeca Jamir, espetacular) e um jovem gay, vivido pelo ótimo Johnny Massaro. No meio desse núcleo central, pequenas histórias narradas que se entrelaçam na trama principal.
Trata-se de uma fábula moderna e localizada, sobre sentimentos de não pertencimento e relações interpessoais, permeado por situações reais e limites e o realismo fantástico típico da veia literária de Hugo Mãe.
Rezende fecha o ciclo do filme com uma fotografia por vezes pesada e por outra com muitas cores, planos longos e estáticos, além da redução da proporção de tela para passar a sensação de sufocamento e aprisionamento. É preciso um exercício de paciência para embarcar no clima da história e em como a trama vai se desenrolando para um final poético e catártico, mas a partir do momento que isso ocorre, a viagem é recompensadora.
Como eu disse, é uma pena que a Netflix não tenha dado mais destaque ao trabalho de Daniel Rezende, um dos melhores filmes brasileiros do ano, e à interpretação visceral de Santoro. Em compensação, temos conteúdos hollywoodianos manjados espalhados por todo o streaming.