A empreendedora Katherine Mota, de 31 anos, que mora em Boa Vista há sete anos, resume o momento como uma mistura de alegria e apreensão.
A empreendedora Katherine Mota, de 31 anos, que mora em Boa Vista há sete anos, resume o momento como uma mistura de alegria e apreensão.

Mensagens com a frase “Venezuela livre” passaram a circular intensamente em grupos de WhatsApp de venezuelanos que vivem no Brasil após a captura do presidente Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos, neste sábado (3). Entre refugiados ouvidos pela imprensa internacional, o sentimento predominante é de comemoração e alívio, depois de anos marcados pelo medo, pela escassez e pela ruptura forçada com o país de origem — ainda que a euforia venha acompanhada de cautela e incertezas sobre os próximos passos dentro da Venezuela.

Em Boa Vista, capital de Roraima e principal porta de entrada de venezuelanos no Brasil, grupos de imigrantes chegaram a organizar atos espontâneos de celebração em praças da cidade. Para muitos, a notícia reacendeu uma esperança que parecia distante: a possibilidade de voltar para casa depois de anos reconstruindo a vida em território brasileiro. Ao mesmo tempo, o fechamento das fronteiras, a dificuldade de contato com parentes que permaneceram na Venezuela e a incerteza sobre o cenário político e de segurança em Caracas impõem um freio à empolgação.

É o caso de uma venezuelana que vive há dez anos no Brasil e viajou recentemente à Ciudad Bolívar para passar o Natal com uma irmã doente. Após sete anos sem retornar ao país natal, ela foi acompanhada do marido e dos três filhos pequenos, todos nascidos no Brasil, e tinha passagem comprada para voltar a Boa Vista nesta segunda-feira (5). Agora, no entanto, não sabe sequer se conseguirá sair da cidade. Com emprego fixo, apartamento alugado e até animais de estimação no Brasil, ela relata um impasse que mistura emoção e angústia. Por medo de represálias, pediu para não ter o nome divulgado.

Segundo ela, terminais rodoviários e postos de combustível foram fechados, e o país vive um clima de estado de sítio. “Todas as nossas coisas estão no Brasil. Nosso emprego, nossas responsabilidades. Dia 10 tenho que pagar aluguel, na quarta-feira tenho que voltar a trabalhar. Mas acabaram de fechar o terminal. Não tem como sair nem de casa”, contou. Antes de cruzar a fronteira, ela apagou as redes sociais do celular, receosa de fiscalizações nas estradas. A notícia da captura de Maduro chegou na noite de sexta-feira, enquanto assistia a um vídeo no computador da irmã. “Choramos de emoção. Ninguém dormiu. Mas quem está fora pode comemorar. Quem está aqui precisa ser cauteloso”, disse.

A empreendedora Katherine Mota, de 31 anos, que mora em Boa Vista há sete anos, resume o momento como uma mistura de alegria e apreensão. “É algo que esperávamos há muito tempo, mas também sinto medo. Ainda tenho família lá e não sabemos o que pode acontecer agora. As Forças Armadas estão nas ruas, muitos comércios fecharam e as pessoas estão comprando alimentos com receio de escassez”, afirmou. Para ela, o clima é de esperança, mas também de grande incerteza.

Katherine se diz um pouco mais tranquila porque a mãe, a avó e uma tia estão no Brasil para visitá-la neste fim de ano. A família pretendia retornar à Venezuela na próxima sexta-feira, plano que agora está indefinido. Apesar de ter construído uma nova vida em Roraima, ela admite que a possibilidade de retorno ao país de origem volta a ganhar força. “Eu amo o Brasil, amo Roraima, mas a esperança de voltar sempre esteve lá, guardada”, disse.

De acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), cerca de 7,9 milhões de pessoas deixaram a Venezuela nos últimos anos, sendo mais de 6,9 milhões acolhidas por países da América Latina e do Caribe. No Brasil, os venezuelanos formam o maior grupo de imigrantes estrangeiros: segundo o Censo de 2022 do IBGE, mais de 271 mil vivem atualmente no país. Para muitos deles, a notícia deste sábado não representa apenas um fato político internacional, mas um raro suspiro de alívio depois de uma longa travessia — daquelas que ninguém faz por vontade própria, mas por necessidade.