
A América Latina encerra 2025 com um título assustador: é a região mais letal do mundo para jornalistas fora de zonas de guerra. Segundo levantamento da Repórteres Sem Fronteiras, ao menos 17 profissionais de imprensa foram assassinados na região ao longo do ano, número que representa cerca de 27% de todas as mortes de jornalistas no planeta relacionadas ao exercício da profissão.
O dado expõe uma realidade brutal: mesmo sem conflitos armados formais, repórteres seguem sendo silenciados por investigar corrupção, crime organizado e relações entre poder político e grupos criminosos.
O México aparece novamente no topo do ranking latino-americano, com nove jornalistas mortos em 2025, tornando-se o segundo país mais perigoso do mundo para a profissão fora de zonas de guerra, atrás apenas da Faixa de Gaza.
Casos também foram registrados no Peru, que não tinha assassinatos de jornalistas há quase duas décadas e somou três mortes neste ano, além de uma tentativa de homicídio em 13 de dezembro. Equador contabilizou dois assassinatos, enquanto Colômbia e Honduras registraram um caso cada.
Ameaças e impunidade
De acordo com Artur Romeu, diretor da RSF para a América Latina, a combinação entre crime organizado, impunidade e “leis do silêncio” impostas por facções transforma jornalistas — especialmente os que atuam em veículos locais ou de forma independente — em alvos fáceis.
Muitos dos profissionais assassinados trabalhavam sozinhos, mantinham páginas próprias nas redes sociais ou cobriam temas sensíveis sem proteção institucional. Dados do Comitê para a Proteção dos Jornalistas mostram que até meados de dezembro foram registradas 12 mortes de jornalistas na região, contra sete em 2024, um aumento de 71%.
Cenário de risco e restrições à liberdade de expressão
Embora nem todos os casos tenham motivação confirmada ligada ao trabalho jornalístico, o crescimento reforça o cenário de risco. O contexto é agravado por um ambiente geral de deterioração da liberdade de expressão.
Um relatório da Unesco aponta queda de 6,86% nos índices de liberdade de expressão na América Latina entre 2012 e 2024, com avanço da autocensura, restrições à imprensa e pressões políticas e econômicas sobre comunicadores.
O resultado é um jornalismo exercido sob ameaça constante, em que investigar pode custar a vida. Fora das guerras declaradas, a América Latina segue sendo um dos lugares mais perigosos do mundo para contar a verdade.