Tensão na Venezuela: Eleições e democracia popular dificultam intervenção estrangeira, alertam analistas
Tensão na Venezuela: Eleições e democracia popular dificultam intervenção estrangeira, alertam analistas

Matheus Colares do Nascimento

Desde o início das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a probabilidade de um conflito real na Venezuela tem aumentado. Recentemente, esse cenário se intensificou com o envolvimento diplomático aberto de outros atores na questão. O motivo parece ser que os EUA e seus aliados finalmente compreenderam a inviabilidade de derrotar os representantes do governo bolivariano por meio de estratégias convencionais. Entre essas estratégias, o terreno eleitoral é, evidentemente, onde a força do bolivarianismo se mostra mais sólida.

É importante entender que as condições políticas específicas da Venezuela revelam uma tradição democrática consolidada, apesar dos ataques midiáticos ao Executivo e das denúncias de fraude. Do ponto de vista institucional, a democracia venezuelana é aproximadamente quarenta anos mais antiga que a do Brasil, por exemplo: a primeira teve início com o Pacto de Punto Fijo, em 1958, enquanto a segunda começou em 1984, com o fim da ditadura militar.

Além disso, o Movimento Bolivariano Revolucionário (MBR-200), fundado por Hugo Chávez em 1982 e posteriormente transformado no Movimento V República (MVR) para a campanha eleitoral de 1998, tinha forte atuação na organização de base. Após vencer o primeiro plebiscito constitucional, em 1999, Chávez incorporou na Constituição diversos mecanismos de participação democrática popular inspirados nas bases do movimento.

Em dezembro de 1998, Hugo Chávez Frías foi eleito presidente da Venezuela pela primeira vez, com 56,2% dos votos. Apesar de ter tentado um golpe militar quatro anos antes, sua ascensão ao poder demonstrou respaldo popular e reflectiu o desejo da população por uma ruptura com os antigos consensos democráticos estabelecidos no Pacto de Punto Fijo. Uma de suas primeiras medidas significativas foi convocar um plebiscito constitucional no ano seguinte, que alterou radicalmente a natureza da República: a Venezuela tornou-se, então, uma República Bolivariana. A nova Constituição ampliou os poderes do Executivo, cujo mandato passou a ser de seis anos, com direito a mais reeleições. Crucialmente, a assembleia constituinte também expandiu drasticamente a participação democrática popular. A proposta de Chávez foi aprovada com 71% dos votos.

A legitimidade da nova constituição foi reafirmada nas três eleições seguintes — 2000, 2006 e 2012 —, nas quais o chavismo manteve a hegemonia política, obtendo vitórias com entre 55% e 62% dos votos.

Foi com base nesses resultados que tanto a oposição venezuelana quanto seus aliados estrangeiros reconheceram a supremacia do chavismo como ideologia política das massas no país. Diante da impossibilidade de vitória eleitoral, mesmo com reações veementes e, por vezes, sediciosas da oposição, a invasão militar surge como a última cartada na manga.