
Matheus Colares do Nascimento
A narrativa sobre as drogas trabalha a partir da demonização da substância. De fato, esse recurso ideológico é uma arma frequentemente utilizada pelo imperialismo estadunidense para justificar suas pretensões de poder. O modo como a questão das drogas é elaborada a partir dessa perspectiva ideológica é o mesmo em que a religião islâmica o é a partir da narrativa sobre o “terrorismo” e fundamentalismo. É comum afirmar que o que o terrorismo é para o Oriente médio o mesmo que as drogas e o narcotráfico são para a América Latina.
Os EUA sempre mantiveram uma relação próxima com as drogas e o narcotráfico assim como eles mantiveram com o terrorismo. Os EUA se utilizam do discurso acerca do terrorismo para justificar suas ações estratégicas, mas também fomentam e financiam grupos declaradamente terroristas para o mesmo fim. (O caso da Al-Qaeda e de Osama Bin-Laden sendo o mais emblemático). Da mesma forma, os EUA promovem políticas “supostamente” antidrogas, mas também fomentam e financiam grupos de narcotráfico. Essa lógica é fundamental para entender o que está agora acontecendo com a Venezuela. Os EUA se utilizam da lógica do narcotráfico para justificar a invasão de um país, mas, paradoxalmente, é o país que mais inunda o seu próprio mercado consumidor interno com drogas.
Circuitos de Drogas e Legislação
De acordo com o professor da USP Henrique Carneiro[1], há atualmente três principais circuitos de drogas no mercado mundial. O primeiro é o que se chama fármaco ou remédios, a segunda é o da chamada drogas lícitas, e.g., tabaco, álcool etc., e o terceiro é o das drogas ilícitas, maconha, cocaína e substâncias sintéticas, muitas consideradas sem uso medicinal. Esses circuitos são apoiados muitas vezes por legislações que em nada se refere à qualidade da substância em si, mas a condições específicas da sua comercialização.
A Crise dos Opioides nos EUA
Os opioides oferecem um exemplo importante desse fato. Atualmente, os EUA vive uma crise de adição a opioides, o mais famoso deles sendo o Fentanil[2]. Apesar dessa substância entrar também ilegalmente no país[3], o aumento do seu consumo se deve primordialmente a partir do mercado legal na década de 1990. Opioides como o fentanil foram primeiramente sintetizados para uso médico há mais de um século. Na década de 90, porém, fórmulas mais potentes dessas drogas foram desenvolvidas e com elas a necessidade de dar vazão a elas no mercado. A partir dessa época, o mercado interno dos EUA sofre uma inundação de opioides, na maioria das vezes produzidos por empresas farmacêuticas do próprio país. O mercado ilegal nasce a partir da sintetização legal dessa substância que, por ser causadora de extrema dependência, possui um potencial de demanda altíssimo se não regulamentada.
Isso coloca em xeque a narrativa antidroga dos EUA como justificativa para alvejar outros países, e.g., Venezuela, que é construída a partir da acusação de que os cartéis de narcotráfico desses países inundam o seu país com drogas. Muito pelo contrário, o maior cartel e fornecedor de drogas para os EUA é o próprio EUA.
Com efeito, o caso do Fentanil não é o único em que os EUA se utilizou do seu próprio mercado interno para despejar substâncias altamente viciantes em cooperação com grandes produtores de drogas. O caso mais conhecido é o referente ao financiamento de grupos de oposição ao governo da Nicarágua entre as décadas de 1970-80, os chamados Contra. Há vasta documentação apontando ligações entre as atividades de narco tráfico que o grupo promovia para se financiar e instituições de segurança e inteligência dos EUA[4].
O Caso da Venezuela e o Narcotráfico
Isso evidencia a proximidade da governança dos EUA com o narcotráfico. No caso da Venezuela, isso não é diferente. Como já afirmaram ex-agentes de governo dos EUA, o chamado “Cartel de los Soles” teria sido organizado a partir da atuação de inteligência dos EUA com o propósito de fomentar atividades oposicionistas[5]. Ironicamente, Trump, que acusava Maduro de ser o chefe do Cartel, é ele mesmo o seu chefe.
O caso da Venezuela, portanto, evidencia os dois aspectos fundamentais da narrativa imperialista estadunidense sobre narcotráfico: de um lado, há a promoção de atividades ilegais por baixo dos panos, enquanto que se acusa governos não-alinhados de promoção dessas mesmas atividades.
[1] https://www.youtube.com/watch?v=Ee5nBBvYx1Q&t=10385s
[2] https://outraspalavras.net/outrasaude/opioides-como-a-dor-enriqueceu-a-big-pharma/
[3] https://www.dea.gov/sites/default/files/2020-03/DEA_GOV_DIR-008-20%20Fentanyl%20Flow%20in%20the%20United%20States_0.pdf
[4] https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/first/w/webb-alliance.html
[5] https://www.latintimes.com/former-green-beret-behind-failed-venezuelan-coup-claims-cia-engineered-cartel-de-los-soles-590696