Decisão secreta marca endurecimento da política americana e eleva risco de escalada militar; Maduro nega acusações e denuncia ameaça histórica ao país
Aprovação de Trump atinge o menor índice em seu segundo mandato, revela pesquisa da CNN. Desaprovação e insatisfação marcam cenário político atual. Foto: Divulgação

Matheus Colares do Nascimento

Vivemos em uma época de intensas movimentações no mundo. Essa época representa um ponto de virada em que o velho está em processo de decomposição e o novo em processo de construção mas ainda amorfo. O ano de 2025 representa essa  tendência em inúmeros e conturbados acontecimentos, os quais precisam ser compreendidos dentro de uma totalidade que lhes dá significado. Essa compreensão é essencial para não entrarmos em 2026 totalmente perdidos.

Américas:

            O mandato do presidente dos EUA, Donald Trump, é um dos grandes focos da enxurrada de acontecimentos que caracterizam a tendência global. Por incrível que pareça, seu mandato dura apenas 12 meses, mas a agitação causada pela qual é responsável dá a impressão de durar o dobro.

            Seu mandato se inicia com um tarifaço que, pouco teve efeito, mas que mais importante do que atingir seus objetivos serviu como forma de avaliar o grau de poder realmente existente que os EUA ainda possuem. O que a administração Trump compreendeu com o tarifaço pode ser verificado na recém divulgada nova Estratégia de Segurança Nacional. A partir desse documento, os EUA abandonam o corolário Roosevelt, isto é, a compreensão do seu papel histórico como potência intervencionista global. Os EUA, embora ainda seja a maior potência existente no planeta, não possui mais capacidade para intervir diretamente em todos os affairs do planeta, com exceção de alguns lugares estratégicos (Israel e Taiwan) e se limita a intervir indiretamente. Ademais, reconhece-se a existência de potências regionais e, portanto, de um mundo multipolar – coisa que Marco Rubio admite abertamente. Os EUA, portanto, se retrai para o seu papel de potência regional e objetiva reconsolidar e fortalecer seu lugar na região (nas Américas).

            Isso pode ser uma oportunidade para a emergência de países fora da região que se vêem pelo menos um pouco mais “livres” dos seus tentáculos. Porém, é péssimo para as Américas na medida em que intensifica o seu estrangulamento e o apoio às forças reacionárias no continente. A onda de reacionarismo já varre metade do continente. Na argentina, Javier Millei continua seu projeto ultraliberal que afunda o país em pobreza extrema, apesar dos empréstimos estrangeiros jorrando. No Perú, a deposição da Presidente Dina Boluarte revela mais um episódio de instabilidade institucional[1]. Na Bolívia, o sectarismo do projeto da esquerda liberal foi derrotado pela extrema-direita[2]. No equador, Daniel Noboa se elege em meio a um processo eleitoral repleto de denúncias de fraude. E, por fim, o Chile acaba de eleger Daniel Kast para presidente, figura nefasta com ascendência n@z1sta. Há evidentemente um cerco.

            Somado a isso, os EUA avançam abertamente contra a Venezuela. Reconhece-se que é impossível derrotar o chavismo pela sua incrível força de mobilização popular. Nenhuma sanção ou recrutamento de figuras dispostas a vender o seu país – como Guaidó e Corina Machado – é capaz de derrotar Maduro e o chavismo, há que partir para ameaças militares diretas. Por outro lado, isso mostra como há evidentemente resistência, os EUA não fariam tamanho esforço contra a Venezuela caso o chavismo fosse uma força inofensiva no continente.

            O Brasil se encontra ainda ou perdido ou apenas postergando uma tomada de posição inevitável. Por um lado, foram cometidos erros diplomáticos gravíssimos contra a Venezuela, e.g., o veto da sua entrada nos BRICS, que aumenta a margem para o avanço dos EUA, assim como posição lamentável sobre a reeleição de Maduro em que o Brasil fez coro com a extrema-direita golpista mundial. Com efeito, o país se mostrou ainda de alguma forma resiliente aos ditames dos gringos ao enfrentar o tarifaço, porém, dificilmente podemos dizer que isso representa uma vitória concreta. Isso mostra a vitalidade e solidez da dinâmica econômica interna do Brasil no cenário mundial. Isso, porém, pouco importa já que esta é pautada na exportação de produtos primários e num capital financeiro rentista que vive apenas se alimentando do rentismo que consegue tirar da taxa básica de juros extremamente alta. O Brasil parece não caminhar para trás efetivamente, pois a extrema-direita, embora ainda tenha forças está, por circunstancias do momento, desarticulada. Porém, tampouco parece que caminhamos para frente. Parece implausível, porém, exigir mais que isso do nosso país, afinal, se o Brasil estivesse caminhando para frente todo o continente estaria.

            É importante, porém, frisar que impedir esse avanço é tarefa histórica imperiosa, principalmente, no que toca à Venezuela. Uma intervenção estadunidense na região seria capaz de provocar uma catástrofe sem precedentes para a região marcada por crises humanitárias, crises de refugiados, ascensão de grupos criminosos e assim por diante. Basta vermos em que pé está o Oriente Médio depois da invasão do Iraque, a Guerra na Síria e a destruição da República popular da Líbia.

Ásia e Oriente Médio:

Depois de arrasar países na região, o documento de estratégia nacional anuncia a  “retirada” dos EUA. O documento anuncia que os EUA não farão mais incursões militares na região tal como foram as Guerras do Golfo e do Iraque. Obviamente, os EUA não pode se retirar completamente da região, pois perderiam um importante posto avançado para garantir seus interesses, Israel, especialmente frente à ascensão do Irã como potência regional concorrente.

Neste ano de 2025, o aiatolá Khamenei e o comitê da República Islâmica enfrentaram importantes desafios. Decretou-se a não-obrigatoriedade do uso do véu. Isso mostra uma interessante capacidade de adaptação e flexibilidade do grupo político no poder. Fazer tais concessões é uma forma de neutralizar tendências ocidentalizantes que poderiam no futuro fazer coro para uma revolução colorida e possível mudança de regime.  

Muito mais importante do que isso, porém, foi a vitória da República Islâmica na guerra de 12 dias contra Israel. As forças internas de oposição política foram engolidas pelo aiatolá e o comitê revolucionário, pois a sociedade se uniu em torno dele contra um agressor externo. O Irã mostrou capacidade de infligir danos sem precedentes a Israel, desbancando a sua suposta invencibilidade. A guarda revolucionária adquiriu experiência militar concreta e trilhou uma curva de aprendizado militar que lhe possibilitou furar o impenetrável Iron Dome. Ademais, Israel não conseguiu destruir o projeto nuclear do Irã.

Uma vez que o papel de Israel na região é o de ser esse agente do caos, podemos esperar novos atritos entre esses países no futuro breve. Até mesmo porque o Irã defende abertamente o fim do estado ilegítimo de Israel e o fim do genocídio perpetrado em Gaza, e age indiretamente através de grupos de resistência para que isso aconteça

Do outro lado do continente, a China se consolida agora como protagonista de uma virada na ordem mundial voltada para estabilidade, desenvolvimento em cooperações ganha-ganha e grandes oportunidades para os países que surfarem na onda que ela deixa para trás. Neste ano, o país cruzou mais uma linha da fronteira tecnológica lançando a sua própria plataforma de inteligência artificial totalmente gratuita e menos custosa que as versões desenvolvidas pelos EUA.

Uma vez que o poder material dá suporte ao poder simbólico, neste anos vimos também a ascensão do poder simbólico da China se espalhar pelo mundo. Pesquisas mostram que a opinião mundial sobre a China vira e agora é positiva em 70% das pessoas. Ademais, a China promoveu um dos maiores e mais significativos desfiles militares da sua história. O desfile chocou o mundo pela disciplina e coordenação das tropas e claro pelo poderio militar, até mesmo unidades de ação aeroespacial se apresentaram no desfile. Mais importante que a demonstração de poder, porém, é o foco que ele permite dar para o teatro asiático da guerra.

O teatro asiático da Segunda Guerra Mundial foi o mais longo teatro de guerra. O Japão invade a região da Manchúria em 1931 e decreta a criação do estado fantoche de Manchukuo dando início à ocupação imperial japonesa no território chinês. Durante todo o período da guerra, o leste asiático foi palco de atrocidades e massacres do mesmo grau crueldade – se não mais cruéis – que as ocorridas no leste Europeu. O exército imperial do Japão cometeu uma verdadeiro genocídio na cidade de Nanquim, onde 200.000 pessoas foram assassinadas em um dia apenas. (Sem mencionar a escravidão, prostituição e experimentos humanos perpetrados por unidades especiais). O desfile Chinês dá visibilidade a essa parte sangrenta da história pouco conhecida no Ocidente.

Com efeito, os EUA ainda podem e irão se utilizar da questão de Taiwan para alfinetar a China sempre que possível. Porém, com a sua nova estratégia de retirada tática nos assuntos externos – que não dizem respeito à sua esfera de projeção de poder imediata – são os seus lacaios que são conclamados para fazer o trabalho sujo. No leste asiático, esse papel deve ser desempenhado mais intensamente pelo Japão, país que nunca reconheceu formalmente os crimes cometidos durante a guerra. Nesse contexto, a nova primeira-ministra reacionária Sanae Takaichi coloca em pauta a discussão sobre a remilitarizaçao do país e chegou a afirmar recentemente que a questão de Taiwan diz respeito diretamente à segurança nacional do seu pais.

Europa e Rússia:

            O grande evento político da Europa e ponto central de disputa política continua sendo a guerra da Ucrânia.

            De fato, o exército Ucraniano atual é o melhor exército que a OTAN já montou em toda a sua história, a quantidade de dinheiro que a UE já despejou na Ucrânia poderia reconstruir duas ou três vezes a sua infraestrutura em ruínas. Apesar disso, em nenhum momento o exército Ucraniano conseguiu sustentar uma vantagem de modo a contestar o ímpeto russo. Atualmente, Kursk, Zaporizha e outras regiões chave da Ucrânia estão completamente libertadas e a Rússia busca levar a vantagem no campo de batalha para a mesa de negociações.

Com os EUA lavando as mãos a respeito do conflito ficará difícil sustentar essa guerra, afinal os aportes americanos correspondiam a mais de 90% dos aportes totais para o exército Ucraniano. É difícil, porém, dizer se isso será suficiente para trazer a OTAN para a mesa de negociações na medida em que a única proposta que ainda sustenta os pífios líderes europeus nos seus cargos é a constante russofobia e política do medo. Para que uma paz seja selada, porém, é preciso comprometimento ativo dos líderes Europeus, pois a Rússia, que possui a vantagem nas negociações, almeja uma paz duradoura, a qual redesenhe a política de segurança no continente e que não seja uma mera pausa num conflito que poderá ser requentado no futuro. Caso isso aconteça, porém, os líderes europeus perderão a sua cortina de fumaça que visa a esconder a crise interna pela qual passam atualmente os países europeus (A Alemanha, maior economia do bloco, já está efetivamente em recessão, e na França, segunda maior, nenhum primeiro-ministro parece conseguir parar em pé).

África:

            Com o enfraquecimento econômico da Europa, o continente africano encontra oportunidades concretas para quebrar as correntes do neocolonialismo que permanece após muitos países recuperarem sua independência formal. Ademais, as parcerias sul-sul e ganha-ganha que a China busca consolidar no continente apresentam possibilidades concretas para alguns países africanos romperem com a dependência.’

            Mais notadamente, um grupo de três países se destaca na luta anti-imperialista: os estados do Sahel, Mali, Burkina Faso e Níger. Mesmo após a sua independência formal nas décadas de 1960-70, esses países, assim como outros na região, foram obrigados a adotar como moeda corrente para transações nacionais o Franco CFA. O acordo que sancionava seu uso previa que o Banco Central da França possuiria o controle sobre a emissão dessa moeda e que estes países precisariam depositar suas reservas de ouro também no banco central da França. Os três países também acorrentados a tratados desiguais eram obrigados a vender suas vastas reservas de recursos minerais, especialmente de urânio a preços notavelmente abaixo do mercado para a França que os explorava como fonte de energia barata.

            O rumo dos estados do Sahel vem tomando uma direção diferente desde que grupos políticos liderados por militares nacionalistas ocuparam o poder nos últimos três anos. Desde então, minas de ouro e de urânio foram nacionalizadas, plantas energéticas replanejadas e projetos de industrialização vêm sendo tocados.

Notadamente, nada disso seria possível sem parcerias estratégicas com Rússia e China. A atuação militar da Rússia através do grupo Wagner no Sahel foi ao longo dos últimos anos essencial para a consolidação dessa independência. O grupo russo fornece treinamento e suporte logístico para os militares do Sahel minando assim a influencia ocidental, especialmente francesa na região, recentemente a França abandonou algumas bases militares que ainda mantinha. Simbolicamente, Putin consolida essa parceria com o convite a Traoré de Burkina Faso para atender ao desfile militar de 80 do fim da Grande Guerra Patriótica.

Ademais, esse treinamento é essencial para lidar com grupos insurgentes que ameaçam a integridade territorial da região. Grupos como o Boko Haram têm atuação em partes significativas do Mali e em Burkina Faso. Além disso, depois da sua destruição a Líbia continua a ser um exportador de mercenários na região.

A China, por outro lado, atua com parcerias econômicas, mais notadamente na área de transferência tecnológica. Em 2025, Burkina Faso lançou o seu primeiro modelo de carro elétrico da marca Itaoua a partir de acordos de transferência de tecnologia e fomento de desenvolvimento e infraestrutura promovidos em parceria com a China.

Os estados do Sahel ainda possuem muito a ganhar acoplando-se ao bloco econômico de Rússia e China que promovem uma nova forma de diplomacia baseada no respeito à soberania e em parcerias ganha ganha.


[1] https://outraspalavras.net/direita-assanhada/peru-caos-politico-e-golpe-institucional/

[2] https://aterraeredonda.com.br/bolivia-a-derrota-da-esquerda/