
No futebol brasileiro, ainda há quem se comporte como se mulher fosse intrusa. Como se presença feminina em campo ou no comentário esportivo fosse favor, concessão ou “cota”. Não é. Mulheres estão ali por mérito, por estudo, por talento e por competência — exatamente como qualquer homem que ocupa esses espaços.
O problema é que o futebol segue sendo um território tóxico, onde o machismo não é exceção, é regra. E, não raramente, parte justamente de quem ocupa cargos de poder e deveria, no mínimo, ter responsabilidade institucional. Quando esses personagens falam, não apenas se expõem — educam mal uma legião de seguidores.
O episódio envolvendo o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista (BAP), é emblemático. Ao invés de apresentar argumentos sobre finanças e gestão, preferiu atacar a aparência de uma jornalista da Globo. Como se isso não fosse baixo o suficiente, ainda recorreu ao chavão infeliz de que “pau que bate em Francisco também bate em Maria”. É o retrato fiel da mentalidade atrasada que insiste em sobreviver no futebol.
Não se trata de ignorância. Muito menos de “fala mal colocada”. Trata-se de convicção. BAP é um dirigente esclarecido, comanda o clube mais popular do país, cercado por milhões de torcedoras e mulheres que consomem, sustentam e dão identidade ao futebol. O ataque foi consciente. O alvo, escolhido.
A próxima cena do roteiro é previsível: uma nota burocrática, escrita por assessoria, citando mulheres da família e pedindo desculpas genéricas “a quem se sentiu ofendida”. É o clássico expediente de quem ofende, recua e finge aprendizado, sem jamais rever a própria postura.
Esse tipo de discurso não é deslize. É revelação. Revela o que muitos cartolas pensam, mas não dizem em público. Quando faltam argumentos, sobra agressão. Quando não há razão, parte-se para o ataque pessoal — quase sempre dirigido às mulheres.
Mais grave ainda é a parcela da torcida que aplaude esse comportamento, repete o discurso de perseguição e se coloca como cúmplice. Sem perceber que, ao normalizar esse ataque, também ofende mães, filhas, companheiras e colegas que dividem a arquibancada, a casa e a vida com eles.
Não é bravata. Não é “opinião forte”. É machismo explícito.
E machismo não pode ser relativizado, tolerado ou tratado como folclore do futebol.
Se o futebol quer evoluir, esse tipo de postura precisa ser constrangida, denunciada e combatida — sempre.
Voltamos a qualquer momento.