Del Toro faz uma adaptação bonita de Frankenstein, mas derrapa em construir uma história minimamente interessante
Del Toro faz uma adaptação bonita de Frankenstein, mas derrapa em construir uma história minimamente interessante

O livro de Mary Shelley parecia perfeito para uma adaptação de Guilermo Del Toro. Afinal, “Frankenstein” tem todos os elementos que sempre permearam o cinema do mexicano: criaturas bizarras, personagens em conflitos morais e divagações estéticas e narrativas sobre a angústia da morte.

 O problema é que, mais uma vez, as intenções de Del Toro ficaram pelo caminho. Exatamente o que ocorreu em outros trabalhos irregulares do criador, como a “Forma da Água” e “Beco do Pesadelo”. Toda a criatividade do artista e seu apego ao tom fabulesco do terror estão nesta nova versão desenvolvida pela Netflix, mas parece que o diretor já não consegue surpreender como outrora em trabalhos excelentes como “Mutação”, “Hellboy”, “A Espinha do Diabo” e “O Labirinto do Fauno”.

Eu vejo dois principais problemas que vêm servindo para tirar bastante da vontade do público e crítica com o trabalho dele: o roteiro, que parece inchado, cheio de situações desinteressantes e personagens desinteressados, além de explicações que criam um didatismo maçante. E a montagem, que não favorece o ritmo da narrativa, criando cenas que se passam até demais e não criam uma unidade de ritmo aqui e deixa uma sensação de quem não vai para lugar nenhum.

É claro que o design de produção e a maquiagem continuam irrepreensíveis. O ambiente vitoriano, as cores da fotografia e do figurino, além do desenho da criatura, favorecem o sentido onírico e trágico da história do monstro que é revivido pelo Dr. Frankestein, que paga um preço alto por isso. É uma tragédia atemporal de Mary Shelley, que já gerou inúmeras adaptações, mas nenhuma tão visual quanto esta. Infelizmente, é só isso mesmo.

Outra questão são as atuações, que comprometem o resultado. Oscar Isaac e Mia Goth forçam bastante para estabelecer uma química e os conflitos internos dos seus personagens. Enquanto Jacob Elordi pouco pode fazer diante da estrutura pesada que precisa carregar para dar vida ao monstro. E Christoph Waltz se acomodou no próprio estilo de atuação e parece preso nele.  

E se Alexandre Desplat fez um trabalho de excelência na trilha sonora em “Pinóquio”, aqui se mostra repetitivo e maçante. O CGI de algumas criaturas também passa do bizarro para o preguiçoso.

 No fim, sobra um filme bonito, mas desprovido de alma, que decepciona quem sempre espera o próximo projeto de Del Toro. Talvez o cineasta deva concentrar energia em trabalhos menores, como Pinóquio, e deixar de querer estabelecer uma escala gigante para suas fábulas de horror. Não tem dado certo.