
A escalada de casos de feminicídio e tentativas de assassinato contra mulheres tem reacendido o alerta nacional sobre a violência de gênero no Brasil. Ao longo da última semana, uma série de ataques brutais ganhou repercussão e expôs, mais uma vez, a persistência do problema.
Em São Paulo, um homem abriu fogo contra a ex-namorada usando duas armas. No Recife, outro suspeito matou a mulher e os quatro filhos ao incendiar a casa da família. Ainda na capital paulista, uma mulher perdeu as duas pernas após ser atropelada e arrastada por mais de um quilômetro pelo ex-companheiro, na Marginal Tietê.
Para especialistas, não se trata de episódios isolados. A doutora em estudos de gênero Tammy Fortunato, presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência Doméstica da OAB, explica que o Brasil nunca registrou redução anual nos índices de feminicídio desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015.
Segundo ela, o aumento está ligado à resistência de parte dos homens à autonomia feminina.
“Há uma reação à independência das mulheres. Muitos ainda esperam que elas ocupem papéis subordinados. Quando rompem uma relação ou buscam liberdade financeira e emocional, alguns homens não aceitam”, afirma.
Números mostram a dimensão da crise
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que, em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios e 3.870 tentativas o que significaria mais de 5 mil vítimas fatais caso todos os ataques tivessem se consumado.
Os números preliminares de 2025 seguem preocupantes.
– Cidade de São Paulo: 53 feminicídios, o maior índice desde 2018.
– Estado de São Paulo: 207 casos.
– Santa Catarina: 47 registros, mesmo sendo o estado considerado o mais seguro do país.
Especialistas lembram que o feminicídio difere de um homicídio comum por reconhecer o assassinato motivado pelo menosprezo à condição feminina, geralmente dentro do contexto de violência doméstica. O crime pode ser íntimo (cometido por parceiro ou ex-parceiro) ou não íntimo (por desconhecido), mas 8 entre 10 casos são praticados por homens com vínculo afetivo ou familiar com a vítima.
Falhas do Estado na prevenção e proteção
Para Tammy Fortunato, o Estado brasileiro não cumpre satisfatoriamente seu papel de prevenir, socorrer e acolher mulheres em situação de violência.
Ela aponta que:
- Na prevenção, ainda há pouca ação pedagógica nas escolas para combater desigualdade de gênero. A única iniciativa nacional é a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher, criada em 2021.
- No socorro, muitas vítimas enfrentam descrédito em delegacias, e medidas protetivas nem sempre são fiscalizadas.
- No acolhimento, a ausência de abrigos e apoio contínuo dificulta a ruptura de ciclos de violência.
“Grande parte dos feminicídios poderia ser evitada. O Estado falha desde a educação até a proteção imediata”, afirma.
Penas mais duras não têm freado a violência
Mesmo com o endurecimento legal o feminicídio agora tem a maior pena prevista no Código Penal, entre 20 e 40 anos os crimes continuam em alta.
Para Tammy, a resposta não está no punitivismo: “Homens que matam mulheres agem movidos pelo ódio naquele momento. Eles não avaliam se ficarão presos por 20 ou 40 anos. O que pode mudar essa realidade é educação, prevenção e políticas de apoio.”
Como denunciar violência contra a mulher
Um dos maiores obstáculos é que muitas vítimas não conseguem denunciar por medo, dependência emocional, financeira ou pressão familiar. Por isso, qualquer pessoa pode denunciar: vizinhos, amigos, parentes, colegas de trabalho ou qualquer cidadão.
Canais de denúncia:
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
- Funciona 24h
- Aceita denúncias anônimas
- Orienta sobre procedimentos e direitos
Delegacia Virtual – DEAM Virtual
A mulher pode registrar Boletim de Ocorrência sem sair de casa, inclusive por violência doméstica:
Delegacia Virtual: https://www.delegaciavirtual.pa.gov.br (exemplo; substitua conforme o estado)
Aplicativo Proteja Brasil
Indica locais de atendimento mais próximos: delegacias, conselhos tutelares e serviços de saúde.
Disque 190 — Polícia Militar
Para situações de emergência ou risco imediato.
Com informações: STB News
Editado por Débora Costa