Luana Lopes Lara, ex-bailarina e cofundadora da Kalshi, tornou-se a bilionária mais jovem do mundo a construir sua própria fortuna.
Luana Lopes Lara, ex-bailarina e cofundadora da Kalshi, tornou-se a bilionária mais jovem do mundo a construir sua própria fortuna.

A brasileira Luana Lopes Lara, de 29 anos, acaba de se tornar a bilionária mais jovem do mundo a construir a própria fortuna, após a startup de mercado de previsões que ajudou a fundar, a Kalshi, alcançar uma avaliação de US$ 11 bilhões.

Ex-bailarina formada na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, Luana viveu uma adolescência marcada por extrema disciplina e competição intensa. Ela relembra treinamentos em que as professoras seguravam cigarros acesos sob sua coxa enquanto ela estendia a perna até a orelha, um teste de resistência que simbolizava o rigor da formação.

O ambiente competitivo fazia com que colegas chegassem a esconder cacos de vidro nas sapatilhas umas das outras, enquanto a rotina exigia aulas acadêmicas pela manhã e nove horas diárias de balé à tarde e à noite. Apesar da exaustão física e mental, ela mantinha ambições ainda maiores: tornar-se uma inventora, uma líder capaz de criar algo tão transformador quanto as ideias de Steve Jobs.

Impulsionada pelos pais, ambos ligados às áreas exatas, Luana se dedicou intensamente aos estudos, conquistando medalhas em olimpíadas de astronomia e matemática. Após o ensino médio, seguiu para a Áustria, onde se apresentou como bailarina profissional por nove meses. Entretanto, decidiu abandonar os palcos e iniciar uma trajetória acadêmica nos Estados Unidos.

No Massachusetts Institute of Technolog, MIT, ela se formou em ciência da computação, ao mesmo tempo em que aproveitou os verões para trabalhar em duas das maiores gestoras de investimentos do mundo, a Bridgewater Associates, de Ray Dalio, e a Citadel, de Ken Griffin.

A mudança definitiva na carreira aconteceu quando conheceu Tarek Mansour, também de 29 anos, e igualmente estudante de ciência da computação no MIT. Mansour, que viveu os efeitos do conflito libanês em 2007 e aprendeu inglês por conta própria, relembra como Luana sempre ocupava a primeira fila das aulas, chamando atenção pela dedicação. A amizade dos dois cresceu quando começaram a estudar juntos e se intensificou durante os estágios na Five Rings Capital, em Nova York, em 2018.

A criação da Kalshi

Foi durante uma caminhada noturna, no retorno para seus apartamentos no Distrito Financeiro, que surgiu a ideia de criar uma plataforma onde as pessoas pudessem negociar diretamente a probabilidade de eventos futuros. Eles perceberam que mercados tradicionais já eram profundamente influenciados por expectativas — desde desastres naturais até eleições — e concluíram que deveria existir uma forma mais direta e transparente de negociar essas previsões.

A dupla foi aceita na Y Combinator em 2019, mas rapidamente descobriu que a visão inovadora encontraria obstáculos regulatórios significativos. A legalidade dos mercados de previsão era incerta, e mais de 40 escritórios de advocacia recusaram ajudar os fundadores, alegando que a empresa era jovem demais e que o desafio regulatório era grande demais.

Por dois anos, a Kalshi não teve nenhum produto lançado, enquanto Luana e Mansour tentavam viabilizar o negócio em plena pandemia. Luana trabalhava de Londres, enquanto Mansour lidava com a realidade dura da explosão devastadora no porto de Beirute, que matou mais de 200 pessoas. Mesmo passando os dias ajudando a limpar o bairro e a procurar sobreviventes, Mansour continuava dedicado ao projeto todas as noites.

O avanço decisivo veio quando Jeff Bandman, ex-funcionário da CFTC, aceitou orientar a empresa. Finalmente, em novembro de 2020, a Kalshi recebeu aprovação para operar como um mercado de contratos designado, o que classificou legalmente seus mercados de previsão como contratos de eventos. Isso a diferenciou da principal concorrente, a Polymarket, baseada em blockchain, que chegou a ser multada em US$ 1,4 milhão por operar sem registro. A vantagem regulatória, porém, durou apenas até setembro, quando a Polymarket também recebeu aprovação para atuar nos Estados Unidos.

A batalha com a CFTC e o crescimento da Kalshi

O cenário competitivo se intensificou rapidamente, especialmente após o fundador da Polymarket, Shayne Coplan, tornar-se bilionário aos 27 anos após um investimento de US$ 2 bilhões. Mas a Kalshi enfrentaria sua batalha mais decisiva quando a CFTC rejeitou os contratos eleitorais da empresa antes da eleição presidencial de 2024.

Mesmo diante da oposição de investidores importantes, Luana liderou a decisão de processar a agência reguladora. Em setembro de 2024, a Justiça norte-americana decidiu a favor da Kalshi, permitindo que a empresa oferecesse contratos eleitorais regulamentados — um feito inédito em mais de um século.

O impacto foi imediato: o número de usuários dobrou, e mais de US$ 500 milhões foram apostados nos resultados envolvendo Donald Trump e Kamala Harris. Os traders da plataforma acertaram o resultado da eleição um mês antes da apuração oficial.

Com o interesse crescente, o volume de negociações da Kalshi aumentou oito vezes desde julho, atingindo US$ 5,8 bilhões em novembro. Enquanto isso, a Polymarket viu um aumento superior a três vezes, chegando a US$ 4,3 bilhões. A nova rodada de investimentos anunciada recentemente, de US$ 1 bilhão, elevou a avaliação da Kalshi a US$ 11 bilhões e transformou tanto Luana quanto Mansour em bilionários, já que cada um detém cerca de 12% da empresa. O salto é ainda mais impressionante considerando que, em junho, a empresa valia US$ 2 bilhões e, em outubro, US$ 5 bilhões.

Expansão e o futuro da Kalshi

Além disso, a Kalshi expandiu presença ao integrar-se a plataformas como Robinhood e Webull, incluir o fundo de hedge Susquehanna para dar liquidez aos mercados e firmar parcerias com a NHL, o marketplace StockX e a blockchain Solana. Os contratos esportivos hoje representam mais de 90% do volume semanal, que ultrapassa US$ 1 bilhão. Em janeiro, Donald Trump Jr. ingressou no conselho consultivo da Kalshi, fortalecendo ainda mais sua visibilidade pública.

Mesmo com o crescimento acelerado, a empresa enfrenta novas pressões regulatórias, já que alguns estados argumentam que contratos esportivos deveriam ser regulados localmente e sujeitos a tributação estadual. Mas investidores seguem confiantes, lembrando que o histórico da startup mostra uma habilidade incomum de superar obstáculos que antes pareciam impossíveis.

Para muitos próximos da trajetória da Kalshi, a história ainda está apenas começando. A combinação de resiliência de Luana, sua formação intensa no balé, a visão tecnológica adquirida no MIT e a coragem de enfrentar batalhas regulatórias complexas colocou a brasileira no centro da transformação global do mercado de previsões. Seu nome agora surge entre os de jovens empreendedores mais influentes do mundo.

Editado por Luiz Octávio Lucas

Carol Menezes

Repórter

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) desde 2007. É natural de Belém (PA) e repórter do jornal Diário do Pará desde 2013. Atua em cobertura nas editorias de Cidades, Política, Economia e Cultura. Desde 2020 também redige a coluna Linha Direta, seguinte ao Repórter Diário, de terça a domingo. Prêmio Fiepa 2016 de Melhor Repórter de Jornalismo Impresso.

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) desde 2007. É natural de Belém (PA) e repórter do jornal Diário do Pará desde 2013. Atua em cobertura nas editorias de Cidades, Política, Economia e Cultura. Desde 2020 também redige a coluna Linha Direta, seguinte ao Repórter Diário, de terça a domingo. Prêmio Fiepa 2016 de Melhor Repórter de Jornalismo Impresso.