
Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos consolidaram um histórico de operações militares e de inteligência voltadas à captura — ou eliminação — de líderes considerados ameaças estratégicas à segurança nacional americana ou à ordem internacional. A entrada da captura de Nicolás Maduro nesse rol amplia uma lista marcada por decisões duras, operações complexas e impactos geopolíticos profundos, sempre justificadas por Washington sob o argumento de combate ao narcotráfico, ao terrorismo ou a regimes classificados como hostis. Não é exatamente uma tradição elegante, mas é uma tradição — e, como manda o figurino antigo da política externa americana, quando o alvo entra na lista, dificilmente sai ileso.
Um dos precedentes mais emblemáticos ocorreu em 1989, com a captura de Manuel Noriega, então homem-forte do Panamá. Acusado de envolvimento direto com o narcotráfico e de colaborar com cartéis que abasteciam os Estados Unidos, Noriega foi derrubado durante a operação “Just Cause”, que incluiu a invasão do país. Após dias refugiado na Nunciatura Apostólica, acabou se rendendo e foi levado a julgamento em solo americano, tornando-se símbolo de como antigos aliados podem rapidamente virar alvos prioritários quando deixam de ser úteis.
Em 2003, no contexto da chamada “guerra ao terror”, as forças americanas capturaram Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Derrubado após a invasão liderada pelos EUA sob a alegação de que mantinha armas de destruição em massa — que jamais foram encontradas — Saddam foi localizado meses depois, escondido em um buraco subterrâneo. Sua captura teve enorme valor simbólico e político, ainda que o conflito tenha mergulhado o país em anos de instabilidade e violência sectária.
No mesmo ano, Washington obteve outro troféu estratégico com a prisão de Khalid Sheikh Mohammed, considerado o principal arquiteto dos atentados de 11 de setembro de 2001. Capturado no Paquistão, ele foi levado para centros de detenção secretos da CIA antes de ser transferido para Guantánamo. A operação representou um golpe direto no núcleo operacional da Al-Qaeda e reforçou a doutrina americana de perseguição global a líderes terroristas, independentemente de fronteiras.
Essa lógica se repetiu em 2007, com a captura de Abdulhadi al-Iraqi, outro nome de peso da Al-Qaeda. Responsável por operações militares do grupo, ele foi detido no exterior e também enviado para Guantánamo, reforçando o uso da base como destino padrão para alvos considerados de “alto valor”. Não é exatamente um cartão-postal, mas cumpre sua função na estratégia americana.
O episódio mais conhecido dessa política ocorreu em 2011, quando forças especiais dos EUA mataram Osama bin Laden em Abbottabad, no Paquistão. Líder máximo da Al-Qaeda e principal responsável pelo 11 de Setembro, bin Laden foi localizado após anos de intensa busca. A operação, conduzida sem aviso prévio às autoridades paquistanesas, teve enorme repercussão internacional e consolidou o método cirúrgico de incursões diretas contra alvos específicos, ainda que cercado de controvérsias jurídicas e diplomáticas.

Em 2019, foi a vez de Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico. Cercado por forças americanas no norte da Síria, al-Baghdadi acabou se suicidando durante a operação. A ação foi apresentada por Washington como o colapso definitivo do comando central do ISIS, mesmo que o grupo tenha mantido células ativas em diferentes regiões do mundo.

A captura de Nicolás Maduro passa, agora, a integrar esse histórico de ações diretas conduzidas pelos Estados Unidos contra líderes classificados como inimigos estratégicos. No caso venezuelano, pesam acusações de narcoterrorismo, corrupção e envolvimento com organizações criminosas transnacionais, formalizadas em tribunais americanos. Independentemente das controvérsias jurídicas e das reações internacionais, o episódio reforça um padrão já conhecido: quando Washington decide agir, costuma fazê-lo à sua maneira, com manual antigo, pouca sutileza e efeitos que ecoam muito além do alvo capturado. Afinal, na tradição da superpotência, a lista muda, os discursos se atualizam, mas o método continua firme — quase como um velho hábito difícil de largar.