Foto: Raul Martins / Remo
Foto: Raul Martins / Remo

Com um sistema baseado nas transições rápidas e no avanço pelos lados do campo, o Remo surpreendeu a Série B nas últimas oito rodadas. De carta fora do baralho, depois das 15 rodadas sob o comando de Antônio Oliveira, o time voltou a jogar competitivamente, recuperando o formato utilizado no início do campeonato, quando o técnico era Daniel Paulista.

Há um nome por trás da mudança operada na equipe: Guto Ferreira. Técnico experiente, ele chegou, arrumou a casa e desandou a vencer. Foram seis triunfos seguidos, responsáveis por resgatar o Remo do bloco intermediário dos times que não mais eram cotados para o acesso.

A sequência vitoriosa tirou o Leão da 12ª colocação, fazendo com que se recuperasse na competição e chegasse finalmente ao G4 – é o 3º colocado. Mais que isso: o time recuperou a autoestima e o respeito dos adversários. Enfrentar o Remo passou a ser sinal de perigo.

Ao mesmo tempo, a campanha desencadeou uma curiosa tentativa de desmerecer o trabalho desenvolvido pelo clube. É como se, por ser do Norte, o Remo não tivesse o direito de se insinuar na briga por um lugar na Primeira Divisão, ao que parece reservado apenas a clubes do Sul-Sudeste.

Os preconceitos contra o Norte do país são bem conhecidos e ocorrem nas mais diversas áreas de atividade. Belém, por exemplo, sofreu ataques gratuitos desde que foi designada para sediar a COP30, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas. A escolha soou como audácia inaceitável.

O mesmo se verifica agora com o Remo, alvejado por cumprir uma campanha excelente e inesperada. O time se intrometeu entre os favoritos ao acesso. Depois de alijar o Cuiabá da briga pelo acesso, o presidente do clube matogrossense criticou os gastos do Leão na competição.

É como se o projeto de ascensão do Remo já constituísse um crime. Ora, todo clube que busca chegar à Série A precisa investir em elenco, comissão técnica e estrutura. É assim com Coritiba, Athlético-PR, Criciúma, Goiás, Novorizontino e Chapecoense, que também lutam para subir.

É também o caso do Mirassol, ora cumprindo trajetória espetacular na Série A e quase garantido na Libertadores. Nenhum desses clubes chegou a essa condição sem gastar. Futebol é uma atividade cada vez mais dispendiosa, onde não se chega a lugar nenhum sem investimento.

Pior ainda foi a reação do técnico Enderson Moreira e do presidente do Novorizontino, após o empate de sábado, insinuando favorecimento da arbitragem ao Remo no campeonato – embora não haja registro de nenhum jogo em que o time paraense tenha sido beneficiado por erros de árbitros.  

Chega-se então a um duplo absurdo: o Remo é discriminado por ser um clube do Norte buscando alcançar a elite e é atacado por supostamente ser beneficiado por um lobby de forças ocultas. Vá entender.

Força do Leão está nas peças polivalentes

No empate de sábado, em Novo Horizonte, o Remo sofreu com a ausência de organização e dinamismo. Ficava com a bola, mas demorava uma eternidade para ir de uma área a outra, demonstrando desconforto ao ter a posse e pouca objetividade nas tentativas de ir à frente.

Na teoria, era para ocorrer justamente o contrário. O time entrou com quatro jogadores no meio-campo, incluindo Panagiotis e Jaderson, que têm características de armação e sabem articular. Curiosamente, não deu certo. O Remo não agredia a zaga adversária porque não criava jogadas.

Apenas um jogador mostrou desenvoltura diante das dificuldades que o time tinha em campo: Nico Ferreira. Começou na ponta esquerda, mas foi se deslocando para o meio ainda no 1º tempo, em busca de mais espaço para jogar e receber lançamentos.

Na etapa final, caiu para a faixa esquerda e acabou descolando a jogada que levou ao gol de empate. Ao contrário dos demais jogadores, que seguiram atuando como previa a escalação inicial, Nico fugiu ao script e foi decisivo para evitar um resultado negativo.

Caio Vinícius, que também surpreende atuando fora de sua função como volante, fez uma falta tremenda contra o Novorizontino. Estará de volta diante do Avaí, no sábado. Diego Hernández também vai reaparecer. Com ambos ao seu lado, Nico tende a crescer ainda mais em utilidade e movimentação. As polivalências podem garantir o acesso.

Papão reabilita zagueiro que quase foi dispensado

A escalação da dupla Quintana-Novillo no jogo entre PSC e Coritiba, domingo à noite, na Curuzu, causou espanto geral. Sem jogar desde o início da Série B, Quintana chegou a ser colocado em disponibilidade e parecia fora dos planos do clube. Novillo, depois de se recuperar de lesão, também não teve mais chances.

De repente, diante da falta de alternativas, o técnico interino Ignácio Neto convocou ambos para a partida, o que deu mais segurança ao setor defensivo do PSC contra o líder do campeonato.

Quintana, em especial, é exemplo vivo da falta de critérios que marcou a participação do Paysandu na Série B deste ano. Foi praticamente descartado desde que o clube resolveu contratar o veterano Thiago Heleno, que largou a quase aposentadoria para cumprir meia dúzia de jogos pelo PSC e embolsar um dos maiores salários do elenco.