Em coletiva no Pavilhão da Amazônia, André Corrêa do Lago anuncia que negociações seguirão pela madrugada para viabilizar o Pacote Belém.
Em coletiva no Pavilhão da Amazônia, André Corrêa do Lago anuncia que negociações seguirão pela madrugada para viabilizar o Pacote Belém.

A segunda semana da COP30 começou com um recado claro: o tempo agora é de ação ininterrupta. Em coletiva realizada às 18h desta segunda-feira, 17 de novembro, na Blue Zone da Conferência, na capital paraense, a presidência brasileira da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima anunciou que as negociações seguirão pela noite adentro, sem previsão de término, em uma operação de força-tarefa para tentar fechar o chamado Pacote Belém – o conjunto de decisões-chave que marcará a COP30.

Estavam à mesa o presidente da Conferência, embaixador André Aranha Corrêa do Lago, a CEO da COP30, Ana Toni, e a diplomata e negociadora brasileira embaixadora Liliam Chagas.

Com tom firme, André resumiu. “Vamos trabalhar sem hora para acabar”.

E não se trata de metáfora. Ana Toni confirmou que a organização já ativou um plano de funcionamento ampliado, garantindo que vários quiosques de alimentação permanecerão abertos até mais tarde, além de suporte técnico, salas de negociação e logística estendida durante toda a madrugada.

Belém já está preparada para esta noite, que será longa para todos nós”, afirmou.

Liliam Chagas reforçou que, tecnicamente, as delegações já estão operando no que chamou de “modo COP de alto risco”: grupos de trabalho paralelos, textos circulando simultaneamente e consultas em tempo real com ministros e chefes de delegação.

Carta oficial: “Não somos mais uma presidência em preparação. Somos uma presidência em movimento”

Pouco depois da coletiva, um documento oficial – assinado e datado hoje, 17 de novembro de 2025 – foi distribuído a todos os negociadores.

A carta, escrita por André Corrêa do Lago, é um chamado direto ao mutirão, palavra brasileira que simboliza mobilização coletiva, união de esforços, solidariedade prática — conceito que a diplomacia do Brasil aposta como legado da COP30.

O texto diz: “Agora começa o momento em que as palavras precisam se transformar plenamente em ação”.

André destaca que o mundo não observa apenas o que se decide, mas como se decide — e que o processo precisa refletir confiança, coragem, propósito comum e espírito humano.

Também aponta que as negociações devem priorizar temas interligados e interdependentes, e que a Presidência pretende concluir grande parte do trabalho até amanhã à noite, para que a plenária de meio de semana possa consolidar o Pacote Belém.

Mas deixa claro: se for preciso, negocia-se até o dia 21, sem deixar ninguém para trás.

O que está no centro das negociações

O que está no centro das negociações

Entre os elementos do Pacote Belém que precisam avançar:

  • Conclusões do Balanço Global (Global Stocktake)
  • Objetivo Global de Adaptação
  • Fundo de Perdas e Danos e suas diretrizes
  • Artigo 9.5 (financiamento antecipado)
  • Artigo 2.1c (fluxos financeiros alinhados ao clima)
  • Comitê Permanente de Finanças
  • Fundo Verde do Clima
  • Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF)
  • Planos Nacionais de Adaptação
  • Regras de transparência (Art. 13)
  • Programas de mitigação e transição justa
  • Programa de Implementação Tecnológica

A carta resume o espírito: agregar, não fragmentar. Confira o texto na íntegra, traduzido para o português:

17 de novembro de 2025

Queridos colegas, queridos amigos,

Ao iniciarmos a segunda semana da COP30, desejo agradecer a vocês – pela dedicação, pela abertura e pela resiliência. A primeira semana foi marcada por discussões produtivas e um espírito renovado de cooperação. Agora começa o momento em que as palavras precisam se transformar plenamente em ação.

Não somos mais uma presidência em preparação. Somos uma presidência em movimento. A partir deste momento, a Presidência conclama todos os negociadores a se juntarem a um mutirão – uma mobilização coletiva de mentes, corações e mãos.

Vamos trabalhar lado a lado, em modo de força-tarefa, para entregar o Pacote Belém: com rapidez, justiça e cuidado para todos. Vamos acelerar o ritmo, superar divisões e focar não no que nos separa, mas no que nos une em propósito e humanidade. O mundo nos observa não apenas pelo que decidimos, mas por como decidimos: se nosso processo reflete confiança, generosidade e coragem. Acima de tudo, o mutirão pode mostrar nossa capacidade de trabalhar juntos para responder à urgência do momento.

Propomos concluir grande parte de nosso trabalho até amanhã à noite, de modo que a plenária para bater o martelo no Pacote Belém possa ocorrer até meados da semana. No nosso mutirão, priorizamos temas interligados e interdependentes, separados apenas daqueles que requerem tratamento técnico autônomo, como:

decisão sobre o Mutirão

Objetivo Global de Adaptação

Programa de transição justa dos Emirados Árabes Unidos

Programas de mitigação e implementação do Sharm el-Sheikh

Planos Nacionais de Adaptação

Balanço Global (três itens)

Artigo 9.5

Artigo 2.1.c

Impacto da implementação de medidas

Comitê Permanente de Finanças

Fundo Verde para o Clima e Fundo Global para o Meio Ambiente

Fundo para Resposta a Perdas e Danos

Orientações para o Fundo de Perdas e Danos

Relatório sobre o Fundo de Adaptação

Programa de Implementação Tecnológica

Questões relacionadas ao Artigo 13

Se necessário, continuaremos até 21 de novembro – juntos – para que ninguém fique sem voz, e todas as tarefas sejam concluídas até essa data.

Trabalhando lado a lado no texto negociado, a herança de Belém pode ser a de restaurar o próprio processo – nossa confiança mútua, nossa capacidade de trabalhar juntos hoje, e de usarmos nossa diversidade como força de agregação, não fragmentação.

E durante esse trabalho, não vamos esquecer o que nos traz a esta oportunidade única: celebramos 10 anos do Acordo de Paris, enquanto seu ciclo político de ambição entra em movimento — respondendo à urgência através da ação acelerada, da solidariedade e da cooperação internacional.

Estamos aqui no Brasil para criar juntos — por meio do mutirão, um verdadeiro artigo 6º da diplomacia climática brasileira — não apenas o que o mundo pode levar de Belém, mas o que pode fortalecer o multilateralismo, conectar o regime climático ao cotidiano das pessoas e acelerar a implementação do Acordo de Paris.

As apostas são altas, mas nosso potencial também é. Vamos enviar ao mundo uma mensagem clara e simples:

Podemos mudar por escolha, juntos.

André Aranha Corrêa do Lago
Presidente da COP30

Editado por Luiz Octávio Lucas

Carol Menezes

Repórter

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) desde 2007. É natural de Belém (PA) e repórter do jornal Diário do Pará desde 2013. Atua em cobertura nas editorias de Cidades, Política, Economia e Cultura. Prêmio Fiepa 2016 de Melhor Repórter de Jornalismo Impresso.

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) desde 2007. É natural de Belém (PA) e repórter do jornal Diário do Pará desde 2013. Atua em cobertura nas editorias de Cidades, Política, Economia e Cultura. Prêmio Fiepa 2016 de Melhor Repórter de Jornalismo Impresso.