Cartas de Natal mostram os desejos e medos de crianças em áreas violentas - Foto: arquivo pessoal
Cartas de Natal mostram os desejos e medos de crianças em áreas violentas - Foto: arquivo pessoal

Quando Thalia, de 7 anos, escreveu sua carta ao Papai Noel, não foi para pedir seu próprio presente primeiro. O desejo inicial da menina foi um presente para o irmão, que ficou gravemente ferido ainda bebê. A carta dizia:

“Querido Papai Noel, gostaria de uma cadeira de rodas automática para meu irmão de 12 anos, que não anda desde que foi atingido por um tiro. Eu o amo muito e quero fazê-lo feliz. Para mim, peço uma boneca bebê reborn.”

Carta escrita por Thalia, de 7 anos, para o Papai Noel. — Foto: Acervo da família

A história de Thalia e seu irmão, Adrian, reflete a realidade de muitas crianças em áreas afetadas pela violência. Adrian ficou paraplégico aos 2 anos após ser atingido por uma bala perdida em Salvador, na Bahia, segundo contou a mãe, Natalie Souza Guimarães.

A família vive atualmente no município de Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. Em 2019, a cidade foi classificada como a 9ª mais violenta do Brasil. Embora tenha saído do ranking nacional, ainda ocupa a 12ª posição entre os municípios baianos com a maior taxa de homicídios, segundo o Atlas da Violência 2024.

“Ele estava com o pai quando houve um tiroteio na rua. Eles correram, mas meu filho acabou sendo atingido”, lembra Natalie. Apesar das limitações, Adrian e Thalia reinventam as brincadeiras do dia a dia: ele joga bola sentado, usando as mãos, e ela participa ao lado, transformando pequenos momentos em diversão.

A cadeira de rodas automática é o grande desejo de Adrian, algo que a família não tem condições de comprar.

Os irmãos Thalia (de saia rosa), Adrian e Andressa Sophia. — Foto: Acervo da família

Medo e infância interrompida

Em outra realidade, Pietro e Gabriel, ambos de 6 anos, vivem em uma comunidade do Rio de Janeiro e também escreveram cartas para o Papai Noel. Sem saber escrever, tiveram suas mensagens registradas por uma professora.

“Gostaria de ganhar um dinossauro, porque tenho medo de ficar sozinho quando dá tiro na minha rua. Se não puder, pode ser um urso. Quero um amigo”, escreveu Pietro. Gabriel, por sua vez, pediu:

Pietro, de 6 anos, pediu um dinossauro de presente ao Papai Noel — Foto: Reprodução

“Quero um urso para dormir comigo, porque tenho medo quando há tiros na minha casa. Se não puder, pode trazer uma mochila para estudar.”

Esses pedidos simples revelam o impacto da violência cotidiana na infância, afetando desde o direito à proteção até o desenvolvimento emocional.

Violência e o impacto na vida das crianças

Para especialistas, como Gabriela David Correia da Silva, que perdeu o pai na infância devido à violência, experiências como essas moldam profundamente o desenvolvimento de crianças em áreas de risco.

“Crescemos cercados de medo e falta de oportunidade. A infância é encurtada”, observa Gabriela, hoje estudante de pedagogia.

Victoria Lidiana, educadora popular, afirma que a desigualdade e a exposição à violência limitam o direito a uma infância plena. “É preciso questionar se é possível um desenvolvimento saudável em territórios onde corpos e vidas são constantemente desvalorizados”, diz. Ana Claudia Cifali, do Instituto Alana, reforça que garantir proteção e educação adequadas exige mudanças nas práticas de segurança pública.

Eduardo Ribeiro, da Rede de Observatórios de Segurança, destaca que pedidos de Natal que pedem proteção revelam falhas do Estado: “Quando um presente simboliza segurança, percebemos que a criança não recebeu o cuidado que deveria”.

Sonhos que vão além da infância

Nem todas as cartinhas refletem medo ou violência. Algumas mostram desejos de um mundo melhor. É o caso de Murilo Sabecca Mainardi, de 10 anos, de Rio Claro (SP). Ele pediu um tênis para atletismo e um presente simbólico “para o mundo”: paz.

A preocupação com segurança também é compartilhada pelos adultos. Pesquisa Quaest recente mostra que seis em cada dez brasileiros não se sentem seguros em suas cidades, consolidando a questão da violência como prioridade nacional.

Adrian ficou paraplégico aos 2 anos, após ser atingido por uma bala perdida. — Foto: Arquivo pessoal

Com informações: G1 Bahia

Trayce Melo

Repórter

Jornalista formada pela Unama (2019), com experiência em redação, comunicação pública e conteúdo digital. Atua no jornal Diário do Pará, cobrindo futebol e esportes no Norte.

Jornalista formada pela Unama (2019), com experiência em redação, comunicação pública e conteúdo digital. Atua no jornal Diário do Pará, cobrindo futebol e esportes no Norte.