
Circula nas redes sociais um vídeo que sugere que um homem teria alugado uma casa próxima à sede da Polícia Federal, em Brasília, para cavar um túnel até a cela de Jair Bolsonaro. A informação pode soar absurda à primeira vista, mas encontra terreno fértil em um histórico recente marcado por episódios reais de fanatismo político que ultrapassaram qualquer limite de razoabilidade no Brasil. O vídeo é falso e foi produzido com recursos de inteligência artificial e sem qualquer lastro em registros oficiais ou cobertura da imprensa profissional.
Ainda assim, a simples possibilidade de que muita gente tenha acreditado na história revela o grau de radicalização alimentado nos últimos anos por setores extremados do bolsonarismo. Neste ponto, é necessário lembrar que, desde o fim das eleições de 2022, o país assistiu a uma sucessão de episódios que transformaram o inconformismo político em ações concretas contra o Estado e a sociedade.
Entre esses episódios, o mais grave foi protagonizado pelo empresário paraense, George Washington de Oliveira Sousa, 54 anos, que tentou explodir um caminhão tanque que estava em frente ao pátio de abastecimento de aeronaves no Aeroporto Internacional de Brasília. A bomba, montada com explosivos e um detonador, falhou por razões técnicas, evitando uma tragédia de proporções incalculáveis em um dos aeroportos mais movimentados do país, em plena véspera de Natal.
À polícia, o autor declarou motivações políticas e ligação com o ambiente de radicalização instalado em acampamentos bolsonaristas na capital federal. Ele foi condenado por crime de terrorismo e está preso no Complexo da Papuda, no Distrito Federal, para onde o ex-presidente Jair Bolsonaro pode ser transferido.
Além desse ato, naquele caos gerado por bolsonaristas fanáticos em 2022, logo após a derrota nas urnas, rodovias foram bloqueadas por manifestantes que se recusaram a aceitar o resultado das eleições, gerando desabastecimento e colocando vidas em risco. Acampamentos se espalharam em frente a quartéis do Exército, com pedidos explícitos de ruptura institucional, algo sem precedentes na história recente do país.
8 de Janeiro e a Agressão às Instituições Democráticas
O ápice desta escalada ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando prédios dos Três Poderes foram invadidos e depredados por grupos radicalizados. O ataque ao Congresso Nacional, ao Palácio do Planalto e ao Supremo Tribunal Federal entrou para a história como uma das maiores agressões às instituições democráticas desde a redemocratização, com destruição de obras de arte, móveis históricos e documentos públicos.
FANATISMO
Somam-se a isso casos de violência política direta, como o assassinato de um dirigente partidário em Foz do Iguaçu, morto por um apoiador declarado de Bolsonaro durante uma confraternização, além da disseminação contínua de notícias falsas, teorias conspiratórias e montagens digitais que tentam manter viva a ideia de perseguição, golpe iminente ou “salvação” do líder político por meios extraordinários.
Radicalização e a Linha Tênue entre Delírio e Violência
Diante desse histórico, o vídeo do “túnel até a cela” não passa de uma farsa, mas uma farsa que se apoia em um contexto real de radicalização. Quando empresários tentam explodir caminhões-tanque, prédios públicos são invadidos, rodovias são fechadas e instituições são atacadas em nome de um líder político, a linha entre o delírio digital e a violência concreta deixa de ser tão nítida.
O Brasil recente mostrou que o fanatismo não apenas produz boatos — ele também produz crimes, ameaças reais e episódios que, até pouco tempo atrás, pareceriam impensáveis.
Editado por Luiz Octávio Lucas