
O pequeno município de Mercês, na Zona da Mata Mineira,com pouco mais de 10 mil habitantes viveu seu momento CPMI. A eleição da nova Mesa Diretora da Câmara Municipal no início da semana, revelou um autêntico “momento CPMI”, daqueles que parecem improváveis em cidades pequenas, mas que escancaram, ao vivo e sem cortes, o que normalmente fica nos bastidores do poder. A eleição foi interrompida por uma denúncia pública de suborno feita no plenário pelo vereador Marcelio Estevam Teixeira (Mobiliza), conhecido como Marcelio Moto Som, que afirmou ter recebido R$ 100 mil para vender seu voto na disputa interna. Diante dos colegas, da população presente e de olhos atentos, o vereador retirou de uma pasta R$ 50 mil em dinheiro vivo e exibiu ainda um cheque de outros R$ 50 mil, afirmando que os valores teriam sido entregues pelo empresário Calixto Domingos Neto, dono de um posto de combustíveis e irmão do prefeito eleito Donizete Calixto, atualmente impedido de assumir por pendências no Tribunal Superior Eleitoral. O gesto, teatral na forma e explosivo no conteúdo, transformou a sessão legislativa numa cena que lembrava os grandes escândalos nacionais, só que com cenário de interior e impacto direto na vida da cidade.
Segundo Marcelio, a tentativa de compra de seu apoio vinha ocorrendo há cerca de dois meses, acompanhada de pressões constantes. Ele disse ainda possuir áudios e vídeos que comprovariam o episódio. “E agora chegou o momento que muitos duvidaram que chegaria”, afirmou, ao mostrar o dinheiro. Em seguida, cravou, sob aplausos da plateia: “Dinheiro não me compra. O povo que me escolheu, escolheu para representá-lo. Dinheiro não me compra”.
A presidente da Câmara, Rosimeire das Merces Costa (Avante), acionou imediatamente a Polícia Militar, que recolheu o dinheiro apresentado. A Polícia Civil instaurou inquérito, e o Ministério Público de Minas Gerais determinou investigação por possível crime de corrupção. Até o momento, o empresário citado não se manifestou.
Mesmo com a denúncia, a votação da Mesa Diretora foi mantida. José Elizio Ribeiro Coelho (PSD) acabou eleito presidente da Câmara, com o próprio Marcelio escolhido como vice-presidente. A posse está prevista para 1º de janeiro de 2026. Caso o prefeito eleito permaneça impedido, José Elizio deve assumir interinamente a prefeitura, enquanto Marcelio ficará no comando do Legislativo.
Ao justificar a decisão de expor publicamente o caso, o vereador afirmou que um limite havia sido ultrapassado e que Mercês precisava ver, sem maquiagem, o que estava em jogo. “Aqui está o resultado da arrogância de quem pensa que Mercês tem preço. Mas Mercês não tem preço, tem povo, tem limites. E hoje quem passou esses limites vai enfrentar algo que nunca imaginou enfrentar: a exposição completa da verdade, à luz da lei, diante de toda a cidade”, declarou. Em Mercês, por algumas horas, a política local deixou de ser pequena — e o plenário virou palco de um escândalo que ecoa bem além do tamanho do município.