
Crescer com aplicativos de namoro, redes sociais sempre abertas e uma linguagem terapêutica incorporada ao dia a dia não transformou os millennials em santos. Mas ajudou a torná-los… cansados. Para a geração nascida entre 1981 e 1996, a traição perdeu parte do apelo não por culpa ou medo, mas por pura exaustão, evitando a fadiga tipo o Jaiminho do Chaves. Entre trabalho intenso, aluguel caro, academia, terapia e a tentativa de manter a sanidade, arrumar tempo e disposição para um caso extraconjugal soa como exagero. Trair virou tarefa demais para quem já mal dá conta da própria rotina.
O tema ganhou força após um episódio do podcast australiano Mamamia Out Loud viralizar nas redes. A constatação era simples e irônica: nunca foi tão fácil trair do ponto de vista logístico, mas os millennials parecem simplesmente não querer. Nos comentários, o tom era de preguiça assumida. Teve quem resumisse com humor: administrar uma relação já é difícil, duas então, impossível. Como disse a terapeuta familiar Lisa Chen, “a infidelidade virou um projeto emocional paralelo”.
A Exaustão da Geração Millennial e a Traição
Os dados ajudam a explicar o sentimento. Pesquisas indicam que millennials relatam níveis mais altos de esgotamento emocional do que gerações anteriores. Além disso, enfrentam pressão financeira constante, instabilidade profissional e adiam marcos importantes da vida, como casamento e filhos. Some-se a isso o fato de que relacionamentos hoje exigem mais conversa, mais presença emocional e mais vulnerabilidade. “Muitas vezes, falta energia até para um único relacionamento”, destaca Chen. Trair, nesse contexto, deixou de ser aventura e passou a parecer dor de cabeça.
Há ainda um fator cultural decisivo: a chamada “geração terapia”. Psicólogos apontam que os millennials cresceram vendo os efeitos do divórcio e da infidelidade dentro de casa e aprenderam a nomear sentimentos, limites e frustrações. Para a psicóloga Sabrina Romanoff, “quando escolhem um relacionamento duradouro, fazem isso com mais intenção e menos tolerância à traição”.
Editado por Luiz Octávio Lucas