
Condenado por ter atuado como operador do Mensalão, Marcos Valério, mais conhecido como “o carequinha do Mensalão”, voltou a figurar nas páginas policiais. O nome dele aparece nas investigações do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio do Operação Ambiente 186, que deflagrou uma ofensiva de busca e apreensão contra um esquema estruturado de fraudes tributárias que envolve atacadistas, redes de supermercados e empresas do varejo em Minas Gerais, com prejuízo estimado em mais de R$ 215 milhões em ICMS sonegado.
Segundo os promotores, Valério exercia “superioridade hierárquica” no núcleo executivo da organização criminosa, que teria usado empresas-fantasma e notas fiscais interestaduais fictícias para driblar o pagamento do ICMS devido ao estado.
A nova suspeita reabre um debate incômodo para o país: como figuras já condenadas em escândalos históricos continuam circulando em ambientes de negócios e mantendo influência suficiente para integrar estruturas de fraude, mesmo após longas penas e forte exposição pública.
EMPRESAS FANTASMA
Segundo a denúncia do MPMG, o grupo investigado criou um sofisticado mecanismo de “empresas-fantasma” — as chamadas “noteiras” — registradas em estados como Goiás e Espírito Santo, com alíquotas de ICMS reduzidas. Essas empresas emitiriam notas fiscais interestaduais fictícias para justificar remessas de mercadorias. Na prática, os produtos nunca saíram de Minas — o que permitia driblar o recolhimento do ICMS devido no estado.
As buscas ocorreram na Região Metropolitana de Belo Horizonte e no Centro-Oeste mineiro, com cumprimento de mandados em sedes de empresas, residências de empresários e endereços vinculados à rede investigada. Foram apreendidos celulares, documentos, computadores, além de veículos de luxo suspeitos de serem usados para lavagem de dinheiro. Também foi decretada a indisponibilidade de bens no valor declarado de R$ 476 milhões.
O Escândalo do Mensalão e o Retorno de Marcos Valério
Valério já carregava o estigma do escândalo do Mensalão: condenado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por peculato, corrupção ativa e lavagem de dinheiro, com sentença que ultrapassou 37 anos de prisão. Desde 2022, cumpria pena em regime aberto. Com o novo alvo de investigação, o nome dele volta a chamar atenção — e reacende o debate sobre a persistência de operadores históricos em tramas de corrupção e ilícitos fiscais.
Vale observar que a ofensiva do MPMG não se limita a Valério. O esquema apura dezenas de empresas — entre atacadistas e redes varejistas — e múltiplos executivos e sócios suspeitos, o que aponta para uma rede de fraude ampla, organizada e com grave impacto para os cofres públicos mineiros. Como bem lembrou um dos promotores, essas práticas não só lesam o Estado como também distorcem a concorrência, prejudicando quem atua dentro da lei.
Detalhes da Operação Ambiente 186
Por ser uma operação sigilosa, a lista completa e oficial das empresas investigadas não foi divulgada publicamente até agora, mas já apareceram alguns nomes de empresas citadas em reportagens sobre a Operação Ambiente 186, que investiga o novo esquema atribuído ao operador Marcos Valério.
O que se sabe, até o momento, inclui empresas de grandes grupos varejistas de alcance nacional. Conduzidas ao longo de 18 meses, as investigações da Operação Ambiente 186 apontam sonegação superior a R$ 215 milhões e já levaram ao bloqueio de R$ 476 milhões em bens dos suspeitos.
Os promotores responsáveis mantêm sigilo sobre o conjunto completo de alvos e sobre os detalhes que poderiam revelar outras empresas envolvidas. Além da evasão direta, a fraude distorce a concorrência, penaliza empresas que cumprem a lei e cria um ambiente de permissividade em que ilícitos passam a ser tratados como custo operacional.
Editado por Luiz Octávio Lucas