Macaco Tião na revista Casseta Popular, de 1988. Créditos: Divulgação
Macaco Tião na revista Casseta Popular, de 1988. Créditos: Divulgação

O Brasil já assistiu a campanhas inusitadas, mas poucas atravessaram o tempo como a de um chimpanzé que, mesmo sem poder concorrer oficialmente, virou símbolo de protesto e irreverência política. Em 1988, em meio a um cenário de descrença com os candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro, o nome de Tião, um chimpanzé do Zoológico da cidade, ganhou as ruas, os jornais e as urnas, transformando-se em um dos episódios mais curiosos da história eleitoral brasileira.

A “candidatura” de Macaco Tião foi criada como uma brincadeira de cunho político pela revista humorística Casseta Popular, com apoio do então deputado Fernando Gabeira, à época no PV. O slogan era direto e irônico: “Tudo pela evolução. Para presidente, macaco Tião!”. A ideia era expor a insatisfação popular com as opções políticas disponíveis. 

O resultado surpreendeu: Tião recebeu cerca de 400 mil votos e, caso a candidatura fosse validada, teria ficado em terceiro lugar na disputa municipal. O chimpanzé recebeu esse nome em homenagem a São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro

Ainda jovem, tornou-se conhecido por sua interação com o público, especialmente com crianças, caminhando ereto e fazendo caretas que divertiam os visitantes. Com o passar dos anos, no entanto, Tião foi colocado em uma jaula no zoológico, período em que passou a apresentar comportamento agressivo, ficando famoso por atirar excrementos em quem se aproximava.

A revolta de Tião

A decisão de mantê-lo preso foi justificada, à época, pela Rede Globo, que descreveu o chimpanzé como um animal de “hábitos especiais, estilo e intenções diabólicas que a gente nota pelo jeito de olhar”. Entre os alvos de suas “investidas” estavam figuras públicas. Um deles foi o então prefeito do Rio, Júlio Coutinho, responsável por inaugurar a jaula. Questionado pelo programa Fantástico sobre a agressão, ele respondeu que talvez o animal não tivesse gostado do novo espaço onde passou a viver.

Outro personagem atingido pelos excrementos de Tião foi o advogado Marcello Alencar, que anos depois acabaria vencendo o chimpanzé nas urnas, durante a eleição de 1988. A história, que começou como sátira, acabou se consolidando como uma crítica bem-humorada ao sistema político da época.

Que fim teve a trajetória de Tião?

Macaco Tião morreu em 1996, aos 33 anos, em decorrência de complicações causadas por diabetes. Sua morte gerou comoção: o Zoológico do Rio decretou luto oficial e uma estátua foi erguida em sua homenagem. A repercussão ultrapassou fronteiras e ganhou destaque internacional, chegando à primeira página do jornal francês Le Monde. Décadas depois, Tião segue lembrado como um personagem improvável que, mesmo sem discurso ou palanque, marcou a política brasileira.