
Um novo estudo sobre a vida de Floripes Dornelas de Jesus, a Lola, deve ser concluído até o fim do ano. A religiosa mineira, que teria se alimentado apenas de uma hóstia diária por mais de 60 anos, é investigada pelo Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O foco é a avaliação da inédia — a suposta privação total ou parcial de alimentos por longos períodos.
Segundo relatos, Lola passou mais de cinco décadas sem ingerir comida ou líquidos, sobrevivendo apenas da comunhão, fenômeno chamado de inédia eucarística. Casos semelhantes existem na história cristã, como o de Santa Catarina de Sena, mas o de Lola seria um dos mais duradouros. O coordenador do estudo, Alexander Moreira-Almeida, afirma que o caso desafia totalmente o conhecimento fisiológico conhecido, já que o corpo necessita de calorias, proteínas, eletrólitos, vitaminas e também elimina excretas — algo impossível com uma única hóstia diária.
Lola nasceu em Mercês, na Zona da Mata mineira em 1911, ficou paraplégica na adolescência após cair de um pé de jabuticaba e morreu em 1999, em Rio Pomba, na mesma região. Sua casa tornou-se local de peregrinação, e muitos fiéis relataram bênçãos e curas atribuídas à sua intercessão.
O Processo de Beatificação de Lola
O Recanto da Lola continua recebendo visitantes. Em 2005, a Igreja Católica abriu seu processo de beatificação e lhe concedeu o título de “Serva de Deus”. Em abril de 2025, o padre Rodney Francisco Reis da Silva foi nomeado postulador da causa, e o próximo passo é a instauração do Tribunal Eclesiástico na fase diocesana, segundo a Arquidiocese de Mariana.
A pesquisa do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde reúne entrevistas com familiares, religiosos e médicos que conviveram com Lola, além da análise de documentos históricos, registros médicos, exames, reportagens e trabalhos acadêmicos já produzidos sobre ela — de mestrados a artigos científicos. Segundo Moreira-Almeida, outros estudos da UFJF já abordaram o impacto espiritual da religiosa, mas o atual se concentra no aspecto fisiológico da abstinência. Ele reforça que, dentro da fisiologia conhecida, não há mecanismo que permita a sobrevivência tão prolongada sem ingestão calórica, proteica e vitamínica.
Os pesquisadores afirmam que trabalham de forma independente, rigorosa e respeitosa, sem conclusões prévias. O objetivo é reunir evidências que possam confirmar ou refutar o fenômeno. A Igreja, por sua vez, poderá usar os resultados no andamento do processo de beatificação.
Editado por Luiz Octávio Lucas