
Depois de perder o mandato de deputado federal, Eduardo Bolsonaro passou a enfrentar um problema bem menos ideológico e muito mais administrativo: o risco real de ser expulso dos quadros da Polícia Federal por acúmulo de faltas injustificadas. A corporação determinou seu retorno imediato ao cargo de escrivão, função para a qual foi aprovado em concurso público, alertando que a licença concedida enquanto exercia mandato eletivo perdeu efeito com o fim da condição de parlamentar. Caso não se apresente para trabalhar, o filho do ex-presidente poderá responder a procedimento disciplinar que pode culminar em demissão do serviço público.
Eleito deputado federal por São Paulo em 2018 com 1.843.735 votos — a maior votação individual da história do país até então — Eduardo Bolsonaro chegou à Câmara dos Deputados cercado de expectativa por seus eleitores e de apreensão por parte das instituições.
O desempenho eleitoral estrondoso foi impulsionado diretamente pela onda bolsonarista que levou seu pai, Jair Bolsonaro, à Presidência da República, transformando o então desconhecido escrivão licenciado da Polícia Federal em um dos parlamentares mais votados da história nacional.
O capital político, no entanto, não se converteu em protagonismo legislativo nem em resultados concretos para a população paulista. Ao longo do mandato, Eduardo Bolsonaro apresentou baixo rendimento em termos de produção legislativa relevante.
Projetos de lei de impacto direto para o Estado de São Paulo — nas áreas de mobilidade, saúde, educação, segurança pública ou desenvolvimento econômico — foram escassos, e nenhum se destacou por tramitação avançada ou aprovação com efeitos estruturantes.
Sua atuação parlamentar ficou concentrada em pautas ideológicas, discursos de confronto e agendas internacionais alinhadas a movimentos conservadores estrangeiros, deixando em segundo plano as demandas cotidianas dos mais de 46 milhões de paulistas que o elegeram.
EMBAIXADOR NOS EUA
Outro eixo central de sua atuação foi a articulação internacional do bolsonarismo. Eduardo passou a se apresentar como uma espécie de porta-voz informal do governo brasileiro no exterior, aproximando-se de lideranças da extrema direita global e participando de eventos políticos fora do país com frequência superior à observada em agendas legislativas voltadas ao eleitor paulista
A tentativa de alçá-lo ao cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, em 2019, simbolizou esse deslocamento de foco. Embora não tenha prosperado, o episódio consolidou a percepção de que Eduardo Bolsonaro via o mandato parlamentar como etapa intermediária de um projeto político pessoal, não necessariamente vinculado à atividade legislativa clássica. Internamente, sua produção seguiu limitada, enquanto externamente sua imagem se associava cada vez mais a embates, declarações controversas e episódios de desgaste diplomático.
Ao fim do mandato, o contraste era evidente: o deputado mais votado da história deixou a Câmara sem um legado legislativo proporcional à votação recebida. Não liderou grandes comissões, não foi autor de projetos estruturantes aprovados e tampouco se destacou pela defesa de políticas públicas voltadas ao Estado que o elegeu. O capital eleitoral extraordinário de 2018 se dissipou em meio a controvérsias, enfrentamentos institucionais e uma atuação marcada mais pelo barulho político do que pela construção legislativa.
Com a perda do cargo público, o destino de Eduardo é incerto. O episódio acaba funcionando como uma síntese da trajetória do “03”: o político que atacou instituições e agora depende delas; o servidor concursado que construiu discurso de ordem e disciplina, mas se vê acusado de vadiagem administrativa; e o aspirante a diplomata que terminou confrontado com a obrigação básica do funcionalismo público, aquela que não exige inglês fluente, networking internacional ou currículo ideológico, apenas algo bem mais simples e antigo na administração pública brasileira: bater o ponto e trabalhar.