
A confirmação de que dezenas de ararinhas-azuis estão infectadas por circovírus reacende um drama que o Brasil conhece bem: o risco real de perder, mais uma vez, uma das espécies mais simbólicas e raras do país. O Instituto Chico Mendes (ICMBio) informou que, além das 11 aves de vida livre que já tinham resultado positivo, outras 20 ararinhas do criadouro de Curaçá, no norte da Bahia, também estão contaminadas — um golpe duro em um projeto que tenta reconstruir, com muito esforço, uma população que já havia sido declarada extinta na natureza.
O circovírus, responsável pela Doença do Bico e das Penas, não tem cura e costuma ser fatal, atacando justamente o que torna essas aves tão únicas: suas penas vibrantes, seu voo e sua capacidade de sobreviver em um ambiente hostil como a Caatinga. A veterinária Ianei Carneiro alerta que o vírus é altamente contagioso e pode dizimar não só as ararinhas, mas também outras espécies da região. Por isso, a recomendação é clara: recolher os animais infectados, reforçar a higiene e tentar conter o avanço do patógeno antes que o estrago seja irreversível.
Em 2022, quando as ararinhas voltaram a voar livres em Curaçá, o país inteiro acompanhou com emoção o renascimento da espécie no seu território de origem. Agora, porém, o risco de que essa história de recomeço seja interrompida causa profunda tristeza. A soltura de um novo grupo, prevista para julho, foi suspensa. Os técnicos do ICMBio trabalham para rastrear a origem do vírus, separar aves positivas das negativas e reforçar protocolos sanitários que, segundo o instituto, estavam sendo descumpridos pelo criadouro, que recebeu multas que somam mais de R$ 2 milhões. A instituição, por sua vez, contesta as acusações e afirma que segue padrões rígidos de biossegurança.
Enquanto o processo se arrasta, a urgência permanece. A espécie, que já sumiu da natureza uma vez, luta agora contra um inimigo invisível e devastador. É impossível não se comover: ver a ararinha-azul — que já inspirou livros, filmes e gerações inteiras — novamente ameaçada é um lembrete doloroso de como a perda de um único elo da nossa fauna pode ser irreparável. O Brasil assiste, apreensivo, à batalha para impedir que o azul vibrante dessas aves desapareça de vez do céu da Caatinga.
Editado por Débora Costa