Veja o resumo da noticia

  • Expansão do crime organizado na Amazônia Legal, com influência de facções em 344 municípios, impactando rotas de narcotráfico e exploração ilegal.
  • O Pará assume papel central no escoamento de drogas e produtos ilegais, com portos estratégicos como Barcarena e Santarém, disputados por facções.
  • Atuação de 17 facções na Amazônia, incluindo Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC) e grupos regionais e estrangeiros.
  • Facções exploram rotas fluviais e portos paraenses, transformando a Amazônia em corredor internacional para cocaína da América do Sul.
  • Aumento da violência na região, com 8.047 homicídios em 2024, e agravamento em áreas rurais e ribeirinhas devido à disputa territorial.
  • Conexão entre facções, conflitos de terra, desmatamento e invasões em Terras Indígenas, com aumento nos conflitos no campo desde 2015.
  • Crescimento do número de mulheres assassinadas e casos de estupro, impulsionados pela ausência do Estado e domínio das facções.
  • Tríplice fronteira como porta de entrada de drogas, com o CV controlando municípios no Alto Solimões e operando como hub do tráfico.
Foto: Bruno Cecim/aAg. Pa
Foto: Bruno Cecim/aAg. Pa

A Amazônia Legal vive hoje a maior expansão do crime organizado já registrada. É o que aponta o relatório Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Segundo o levantamento, 344 municípios da região já estão sob influência direta de facções, quase o dobro do registrado dois anos atrás. O cenário envolve desde capitais até pequenos municípios ribeirinhos, agora estratégicos para atividades ilegais como narcotráfico, extração de ouro e madeira e conflitos fundiários.

Nesse redesenho territorial, o Pará assume um papel central. Com alguns dos portos mais movimentados da região Norte — como Barcarena e Santarém — o estado tornou-se peça-chave para o escoamento de drogas e produtos ilegais para outros estados e para fora do país. As facções enxergam o território paraense como elo vital das rotas fluviais, rodoviárias e portuárias que cortam a Amazônia. Essa importância logística faz com que o estado seja disputado silenciosamente, muitas vezes longe dos centros urbanos, em áreas de floresta, fronteira agrícola e comunidades ribeirinhas onde o Estado pouco chega.

Cenário do Crime Organizado na Amazônia

O relatório mostra que 17 facções operam atualmente na Amazônia. O Comando Vermelho (CV) é o grupo com maior capilaridade: passou de 128 para 286 municípios entre 2023 e 2025. Já o Primeiro Comando da Capital (PCC) mantém presença estratégica em 90 cidades, especialmente através de rotas aéreas clandestinas conectadas a garimpos ilegais. Também atuam grupos regionais como Bonde dos 40, Primeiro Comando do Maranhão e Família Terror do Amapá, além de facções estrangeiras — como o Tren de Araguá e dissidências das antigas Farc — que ampliam o caráter transnacional do crime no território amazônico.

Rotas fluviais e portos paraenses na mira das facções

A presença criminosa avança acompanhando a geografia dos rios, estradas e fronteiras. O CV domina importantes rotas fluviais no Amazonas, enquanto o PCC investe em pistas clandestinas escondidas no interior da floresta. No Pará, os portos de Barcarena e Santarém surgem como pontos estratégicos do escoamento do narcotráfico. O movimento intenso de cargas e a dificuldade de fiscalização em áreas remotas favorecem operações das facções. Como explica o relatório, a Amazônia tornou-se um corredor internacional, ligando a cocaína produzida no Peru, Colômbia e Bolívia a mercados na Europa, América do Norte e África.

Impacto da Violência e Atuação das Facções

O avanço das facções está diretamente relacionado ao aumento das mortes violentas na região, que somaram 8.047 homicídios em 2024. O Maranhão teve a maior alta percentual, mas estados como Pará enfrentam agravamento da violência em municípios rurais e ribeirinhos onde facções e grupos ligados ao garimpo travam disputa por controle territorial. O Amapá foi o estado com maior taxa de homicídios na Amazônia e no país.

A presença de facções também se conecta a conflitos de terra, desmatamento e invasões em Terras Indígenas — especialmente nas áreas de Apyterewa e Trincheira-Bacajá, no Pará. Em 2024, a Amazônia registrou 1.317 conflitos no campo, maior número desde 2015. Muitas dessas disputas são atravessadas por garimpeiros, madeireiros ilegais, grupos armados e milícias rurais que se relacionam direta ou indiretamente com facções urbanas.

O relatório do FBSP revela ainda que 586 mulheres foram assassinadas na Amazônia em 2024, índice 21,8% acima da média nacional. A região contabilizou mais de 13 mil casos de estupro, impulsionados pela ausência do Estado e pela presença de facções em áreas isoladas. Em territórios dominados, mulheres são submetidas a regras impostas pelos grupos criminosos: desde controle da vida afetiva e familiar até punições, humilhações públicas e, em casos extremos, execuções.

Rotas de Tráfico e Controle Territorial

A tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia tornou-se porta de entrada das drogas que circulam por toda a Amazônia. No Alto Solimões, o CV controla seis dos nove municípios da região e opera como hub do tráfico internacional. A cocaína que ingressa pela fronteira segue pelos rios — incluindo rotas que, inevitavelmente, desembocam em portos e comunidades estratégicas do Pará.

Editado por Luiz Octávio Lucas